• 08Apr

    Carlos Saul Duque

    Muito se fala mal de Porto Alegre, do seu trânsito, dos seus administradores, dos seus habitantes, do seu clima, dos seus restaurantes, da sua violência, escolha você mesmo a chinelada que quer dar na cidade. É um esporte municipal falar mal de Porto Alegre.

    Por mais que muita coisa seja verdade, é bom morar aqui. Mas dói. Um amigo meu, o Fabiano Goldoni, disse no aniversário da cidade que “É melhor viver com saudade do que viver aí.” Ele é publicitário, morou em Buenos Aires, está em São Paulo e traduz o sentimento de muita gente.

    Mas, sejamos sinceros: com todas as suas mazelas – e muitas delas são iguais em todo o Brasil – Porto Alegre é uma cidade adorável, confortável e deliciosamente pequena. Eu gosto de morar aqui.

    Mas a cidade tem uma relação muito cruel com o talento e a criatividade. E este é o paradoxo Nei Lisboa do título. Explico.

    Nei Lisboa é um enorme talento. Grande compositor, sujeito inteligente, porto-alegrino de quatro costados. Tem letras geniais. Tem canções que fazem parte da história da cidade. É um cronista afiado da vida urbana local, tem a ironia fina e o humor dos grandes artistas.

    Em (quase) qualquer outro lugar do mundo Nei Lisboa seria rico. Seria muito mais importante do que efetivamente é para Porto Alegre. Mais reconhecido, mais consultado e mais homenageado. Um talento ímpar que resolveu permanecer na cidade, negou-se ao êxodo. Se ele fosse natural de Denver, Colorado, por exemplo, ou Marne-la-Vallée, na França, teria estátua.

    Se fosse canadense, já haveriam diversas coletâneas de homenagem à sua obra, com interpretações de K.D. Land, Neil Young, Cowboy Junkies e Leonard Cohen. Se fosse inglês, o chamaríamos de Sir Lisboa, ou Knight Nei. Se fosse argentino, sua imagem enfeitaria o altar central da Iglesia Neilisboniana.

    Mas Nei Lisboa fez carreira em Porto Alegre, uma cidade que inexplicavelmente empurra muitos dos seus talentos para fora, sejam eles das artes, do jornalismo, da moda, da fotografia, da propaganda, da arquitetura, do futebol, tanto faz.

    Para mim é um paradoxo. Um povo tão exigente, uma cidade com tanto potencial e esta arrogância ingênua de que o poço nunca vai secar, ou que os talentos vão continuar surgindo sem que haja talentos já experientes para orientá-los. E que os talentos que aqui permanecem, como o Nei Lisboa, vão viver de luz.

    Toda a vez que eu ouço o Nei eu penso nisso. Penso em todos os meus colegas publicitários espalhados pelo Brasil e pelo mundo, nos músicos, nos atores, nos designers, nos talentos que a gente enche a boca para dizer que exportou. E que fazem tanta falta a esta cidade que eu amo.

    Se eu pudesse dizer alguma coisa para eles, pediria que voltassem. Porto Alegre não tem dinheiro suficiente. Não tem oportunidades suficientes. Não tem teatros, ou cinemas de rua suficientes. Não tem incentivo oficial que baste. Mas tem o Nei Lisboa. Isto eu posso oferecer a vocês.

    Posfácio:

    Rolou uma grande e boa discussão a respeito do assunto, que acabou em matéria de duas páginas na Zero Hora do dia 17 de abril. Para ler, abra aqui e aqui.

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  • 29May

    Harry Peacock

    Sim, a Dez já teve um redator argentino em seus quadros. Na sua passagem pela equipe da agência, Fabiano Goldoni deixou marcas. Aquele quebradinho ao lado da porta da Criação, por exemplo. E o afundado no assento direito do sofá da recepção. s1122881239_30201885_3363Contudo, além da implicância com Canoas, que tantos creditam injustamente ao Cavinato, o mais importante legado de Fabiano foram os ensinamentos sobre o modus vivendi de nossos irmãos portenhos, que tanto influenciam nossa culinária e o Grêmio, além de nos aporrinharem em Punta del Este. Em um esforço inédito de reportagem, o blog da Dez fez a sua primeira entrevista em portunhol bilíngue com Goldoni. Com ustedes, Diez preguntas de la Dez para el argentino. Leia na companhia de um bom malbec e um bife de chorizo.

    1.Tu és de la Capital Federal ou del interior de Argentina? 

    Eu vivo desde o dia 17 de setembro de 2005 no que os argentinos corretamente chamam de Capital Federal, mas também é conhecida como Buenos Aires. Faço algumas incursões ao interior da Argentina, que é um país tão bonito quanto o Brasil, porém, é sempre bom lembrar, com três copas do mundo a menos.

    2. Que el time é teu en Buenos Aires? 

    escudo3dSou torcedor e futuro sócio do Club Almagro. É um time conhecido com El Tricolor, nascido em 1911 e inspirado no Grêmio Foot-Ball Portoalegrense: os uniformes são exatamente iguais e o escudo do Grêmio está pintado do lado de fora do estádio, além disso alguns torcedores do clube usam camisetas do Grêmio nos jogos do Almagro. O clube já esteve na primeira divisão, mas passa a maior parte do tempo na segundona. Definitivamente, bastante inspirado no Grêmio.

    3. Por que usted morou en Canoas, Brasil? Dívida, Mujer ou el flagrante delito? 
    Segundo minha cédula de identidade, sou natural de Porto Alegre. Morei em Canoas porque tenho nojo, NOJO, de porto-alegrense!

    4. Reza la lenda que tu es un apreciador do Xis Conejo de esta metrópole brasileña. En que consiste esa iguaria? 
    O Xis Coelho era uma iguaria que podia ser apreciada em Canoas (Capital Mundial do Xis) num estabelecimento conhecido por XIS DO GATO. Trata-se de uma espécie de lanchonete administrada em seus tempos áureos pelo maior criador de coelhos do RS e que direcionava parte de sua produção para dentro de dois pães acompanhado com um saboroso molho de MILHO, salsinha, tomate e maionese. Hoje em dia o xis coelho não existe mais e o Xis do Gato deu lugar a estabelecimentos genéricos que atendem por Taverna do Gato 1 e Taverna do Gato 2.

    5. Es verdad que en tu pasage por Canoas fueste tu que introduciste el mullet en Brasil? 
    Essa informação é imprecisa. Eu usei mullets somente aos 13 anos de idade. Sou uma pessoa à frente do meu tempo e espaço quando o assunto é hype brega..

    6. Qual és el canoense mas conocido en el mundo: Filipón, Cavinato ou el Trensurb? 
    29195041O Felipão é de Passo Fundo. O Trensurb é do Governo Federal. Logo, o Cavinato ganha por W.O.

     

    7. Como és ser casado con una brasileña? 
    Gostaria muito de saber a resposta, pois sou casado com uma gaúcha.

    8. Aliás, argentino entra en la área de la brasileña. Por que brasileño não entra en la área de la Argentina? 

    Porque não vale a pena o esforço. 99% das argentinas são insuportáveis.

    9. Quando viviste en Canoas, como era criar en portunhol? 
    Eu tinha um pouco de dificuldade com a letra xota, com la xê y as palabras com xexedila. De resto, eu me biro bien hablando em brasilero.

    10. Pra encerrar, quem es el mejor: Maradona ou Biro-Biro?
    renato86Portaluppi.

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  • 28Apr

    Carlos Saul Duque

    Segunda-feira passada, 27 de abril. Abro a Zero Hora e vejo uma matéria intitulada “Capital desiste do Caminho dos Parques”. Achei estranho. Uso o “Caminho” todos os fins de semana para correr e encontro dezenas de pessoas fazendo o mesmo, ou andando de bicicleta, ou caminhando. Ao ler a reportagem descobri que a tal “capital” que desistia da nossa pseudo-ciclovia era, na realidade, o poder público. A prefeitura, que considera a faixa criada em 2001 arriscada. Segundo o secretário municipal da Mobilidade Urbana, “O projeto é muito ruim. Induz as pessoas a riscos. Não pode ter uma ciclofaixa em vias de alta movimentação de veículos, como a (avenida) Goethe, por exemplo. Por isso, vamos retirar as placas.”

    2457482491_15c5fff7cfwww.flickr.com/photos/bauhausler/2457482491

    Fico muito feliz que o senhor secretário preocupe-se com a minha integridade física de corredor e a de todos os ciclistas e caminhadores que resistem a degradação que o Caminho dos Parques vem sofrendo por falta de manutenção nos últimos anos. Mas fiquei com uma dúvida: o que a gente vai fazer até 2010, que é o prazo que a prefeitura indica para termos 20km de ciclovias em Porto Alegre? Ficamos em casa? Read more »

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  • 05Feb

    Carlos Saul Duque

    copadomundo70prafrentebrasil-back

    Isto não tem nada a ver com futebol. Quando se fala em sediar uma Copa do Mundo ou uma Olimpíada, sempre tem gente que acha um absurdo um país pobre como o Brasil arcar com os custos de um evento deste tamanho. Que o dinheiro pode ser melhor aplicado e coisa e tal. Ao contrário disso, eu tenho certeza que uma Copa é uma oportunidade incrível, única e que deve ser aproveitada.

    Quando Porto Alegre sediou o primeiro Fórum Social Mundial, houve uma saraivada de críticas à decisão da prefeitura em topar o evento na cidade. A maioria delas era baseada na conveniência ou não de Porto Alegre ser vinculada a um evento de raízes socialistas que encheria as ruas de comunistas. Debate ideológico à parte, em todas as edições do Fórum acontecidas em Porto Alegre o que se viu foram hotéis e restaurantes lotados em plena pasmaceira de janeiro em Porto Alegre, grande fluxo de turistas no Rio Grande do Sul e aumento das vendas do comércio, além da natural exposição da cidade e do Estado na mídia internacional. Tanto que, no momento em que a organização do Fórum migrou o evento para outro lugar, o comércio e os serviços de Porto Alegre ficaram de luto fechado.

    Ser uma das doze sedes da Copa do Mundo de 2014 não significa apenas gastos para a cidade. Que o dinheiro pode ser melhor aplicado eu até concordo, mas antes eu pergunto: que dinheiro? Quem convence aí o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a Dilma, que é mãe do PAC, a aplicar dinheiro em infraestrutura na cidade sem a Copa? Em uma leitura rápida na mídia local você fica sabendo que Porto Alegre tem apenas 27% dos seus esgotos tratados. Sabe quanto a Prefeitura prometeu para a Fifa? 80% de tratamento. Sabe como a gente vai pagar isso? Com 500 milhões de dólares do BID. Isto não é futebol, é saneamento básico.

    Cardápios, motoristas e garçons bilingues. Terminais de saque internacional. As 12,7 mil vagas dos hotéis da cidade ocupados e influência no turismo das cidades em um raio de 150km. Isto é o primeiro mundo? Não, é Porto Alegre preparada para a Copa.

    Hoje um turista estrangeiro gasta cerca de 90 dólares diários no Estado. E eles são cerca de 50 mil. A previsão para a Copa é de 200 mil na cidade. Faz a conta e vê o que vai entrar de dinheiro em Porto Alegre.

    Brigada Militar, Polícia Civil, Guarda Municipal, Governo Federal e segurança privada atuando em conjunto em Porto Alegre desde antes da Copa, pois as inspeções de seguranca anteriores ao evento são altamente severas. Lágrimas de emoção inundam meus olhos só de pensar nisso.

    Um PAC só pra nós para duplicar a avenida Beira-Rio, tormento de quem mora na Zona Sul em dia de jogos. A avenida Tronco, que é rota alternativa. A Rodovia do Parque, para o acesso da Região Metropolitana. E 20,6km subterrâneos de Trensurb do centro até o Menino Deus, uma obra de 1 bi e meio de reais. E quando a Copa acabar, a obra fica.

    E tudo isso fiscalizado pela mais dura, exigente, implacável e disciplinadora entidade do mundo: a Fifa. Não é um sonho? Eu quero a Copa no Brasil. E quero já.

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  • 29Oct
    Categories: Opinião Comments: 0

    Em paris é bom suar

     

    Em paris é bom suar

    As magrelas de Paris Onde você for em Paris vai ver alguém pilotando uma bicicleta cinza. Os tipos humanos mais variados e inesperados, engravatados, senhores de idade, gordinhos, fashion victims com sacolas de grife madames com seus cachorrinhos na cestinha, russos esparrentos, emos, hippies e cavinatos, de tudo circula por Paris em duas rodas.

    O Vélib’, self-service quase gratuito de bicicletas da prefeitura, é um grande sucesso. Funciona simples assim: você vai até uma das mil e duzentas estações do serviço espalhadas pelas ruas da cidade e compra uma assinatura no terminal eletrônico, obrigatoriamente com um cartão de crédito. Pode ser para um dia, uma semana ou um ano. Para a de 24 horas, paga-se apenas €1 euro. A de um ano custa apenas €29. Com o cartão de assinatura na mão é só escolher a bicicleta pelo número, colocar no terminal a senha que você reistrou e o camelo escolhido é liberado automaticamente.

    A primeira meia hora é de graça, a segunda custa €1 e o preço aumenta bem de mansinho. Você pedala feliz por Paris e, quando sua poupança estiver quadrada, engata a bicicleta na estação mais próxima. Tudo garantido pelo seu cartão de crédito, que será descontado em €150 se você inventar de não devolver o patrimônio à prefeitura de Paris.

    O fato de a assinatura de um dia custar tão pouco engajou a turistada no projeto e, realmente, locomover-se de bicicleta por Paris é uma barbada, muito mais barato e rápido – se a distância for curta – do que pegar o metro, que custa €1,60. Mas o principal cliente do Velib’ é o parisiense, aquele sujeito que anda com o baguete embaixo do braço. E para isso todas as bicicletas tem uma cestinha para o seu pão, poodle ou sacolinha da Fnac, além de luzes de sinalização, buzina trim-trim e até corrente com fechadura. O negócio funciona que é um aço.

    “Ah”, diria você agora, “mas no primeiro mundo as coisas são diferentes”. Até são, meu caro Watson, mas nem tanto.

    Desde a sua inauguração, mais ou menos um ano atrás, três mil das 16 mil bicicletas do Velib’ desapareceram. Há notícias de reaparecimento de uma delas na Romênia. Além de outra que materalizou-se na Austrália, veja só. Além disso, outras três mil foram destruídas ou danificadas.

    A conta é de 37,5% das magrelas fora de circulação, número bem terceiro-mundista que, se consolidado em Porto Alegre, ilustraria capa da Zero Hora com foto do secretário municipal lamentando a falta de educação do povo.

    Mas não, os parisienses não desitiram da idéia, nem jogaram a responsabilidade do percentual acima nos ombros dos turistas terceiro-mundistas, ou dos imigrantes negros da cidade-luz. A coisa foi adiante e hoje a bicicleta cinza já é uma característica nova e marcante das ruas centrais de Paris.

    Diga um número de 1 a 6000.

    Diga um número de 1 a 6000.

    Finlândia, Estados Unidos e Austrália planejam sistemas similares. O que me leva a suspeitar que foi o prefeito de Sidney quem roubou a tal bicicleta que apareceu entre os cangurus.

    Mas nem tudo são flores. Os motoristas reclamam do repentino aparecimento de milhares de novos ciclistas na cidade, muitos deles sem habilidades duas-rodísticas. Reclamam do espaço que as estações do Velib’ roubaram dos estacionamentos públicos.

    Reclamam das ciclovias. Reclamam mas não tem jeito, veio para ficar. O próximo passo da prefeitura é colocar carros elétricos no mesmo esquema de aluguel e assim contribuir ainda mais para a despoluição do ar da cidade. E, vejam só, o serviço deu um lucro de €20 milhões no primeiro ano com custo zero para os contribuintes.

    Como isso foi possível? Simples: parcerias público-privadas, companheiro. A gigantesca operadora de mídia externa JCDecaux pagou por tudo em troca de mil e seiscentos espaços de publicidade em Paris. O que nos leva a concluir que além de gigantesca ela também é inteligente, pois ganhou território valioso em uma das cidades mais importantes do mundo conectando o seu nome a essa iniciativa nobre, simpática, auto-sustentável e despoluidora.

    Ou seja, roubo e vandalismo não são privilégio brasileiro, mas uma praga que não livra nem a cara dos países desenvolvidos. Empresas de publicidade podem contribuir com um mundo melhor e ainda ganhar dinheiro com isso. Prefeitos criativos tornam suas cidades melhores. Motoristas são rabujentos e egoistas dos dois lados do oceano. E bicicletas são legais.

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