• 28Apr

    Carlos Saul Duque

    Segunda-feira passada, 27 de abril. Abro a Zero Hora e vejo uma matéria intitulada “Capital desiste do Caminho dos Parques”. Achei estranho. Uso o “Caminho” todos os fins de semana para correr e encontro dezenas de pessoas fazendo o mesmo, ou andando de bicicleta, ou caminhando. Ao ler a reportagem descobri que a tal “capital” que desistia da nossa pseudo-ciclovia era, na realidade, o poder público. A prefeitura, que considera a faixa criada em 2001 arriscada. Segundo o secretário municipal da Mobilidade Urbana, “O projeto é muito ruim. Induz as pessoas a riscos. Não pode ter uma ciclofaixa em vias de alta movimentação de veículos, como a (avenida) Goethe, por exemplo. Por isso, vamos retirar as placas.”

    2457482491_15c5fff7cfwww.flickr.com/photos/bauhausler/2457482491

    Fico muito feliz que o senhor secretário preocupe-se com a minha integridade física de corredor e a de todos os ciclistas e caminhadores que resistem a degradação que o Caminho dos Parques vem sofrendo por falta de manutenção nos últimos anos. Mas fiquei com uma dúvida: o que a gente vai fazer até 2010, que é o prazo que a prefeitura indica para termos 20km de ciclovias em Porto Alegre? Ficamos em casa? Read more »

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  • 02Apr

    Greice Antes, estilista

    “É em Paris ou em lugar nenhum. Na verdade, um vestido parisiense não é feito de tecido, mas de suas ruas, de sua arquitetura… é coletado da vida e dos livros, dos museus e dos eventos inesperados do dia. É nada mais do que um vestido e, ainda assim, o país inteiro o fez”.

    lelong

    Foi assim que Lucien Lelong, então presidente da Chambre Sindicale de la Haute Couture, desafiou os alemães que pretendiam transferir as maisons de costura para Berlim e Viena durante a Segunda Guerra Mundial. E ele estava certo: ainda hoje é só andar pelas ruas de Paris e olhar as meninas de mãos dadas com suas mães para ver que elegância e estilo têm berço. Na França, no Brasil ou no Vietnã, nascem das percepções cotidianas, da educação, da história e suas transformações, do lugar onde vivemos.

    Nascem do que aprendemos, do que nos tornamos.

    A roupa pode dizer muito sobre você, mas não deve dizer mais do que você mesmo.
    Nos habituamos a vestir o que está nas revistas, o que a mocinha da novela usa em cada capítulo. Mas se não gostar do xadrez apontado pelas tendências, você vai usar? A moda é sinal do Zeitgest, o “espírito do tempo” que determina os traços e os contornos do que é contemporâneo. Ela contribui para a instalação do mesmo. Afinal, a roupa não serve apenas para cobrir o corpo, vai muito além de uma necessidade. Por isso, o desenvolvimento do vestuário de qualquer período está relacionado a diversos fatores, desde o clima e modo de vida à economia, política e arte.

    Mas, não estaríamos banalizando demais nossos gostos, nossa história e valores, nossa personalidade em prol do efêmero?

    coco-chanel

    Voltando a Paris, já dizia Chanel: “a moda sai de moda, o estilo, jamais”. Com tanta oferta de formas e cores, é cada vez mais difícil determinar o que vai permanecer da moda da estação, qual a tendência que vai crescer, o que será febre passageira.
    Ainda assim, a moda vai continuar sendo uma forma de expressão humana. E uma colaboradora do estilo próprio, da personalidade de cada um.

    Da próxima vez, antes de abrir uma revista pra saber qual é a última moda em Paris, lembre-se que respeitar seu corpo, sua história, seu gosto e seu humor diante do espelho podem fazer maravilhas por você.

    Aprender sobre si mesmo e não se deixar parecer com ninguém mais. Aqui, na França ou no Vietnã, esse é o segredo do estilo genuíno. Esse é o espírito do seu tempo.

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  • 29Oct
    Categories: Opinião Comments: 0

    Em paris é bom suar

     

    Em paris é bom suar

    As magrelas de Paris Onde você for em Paris vai ver alguém pilotando uma bicicleta cinza. Os tipos humanos mais variados e inesperados, engravatados, senhores de idade, gordinhos, fashion victims com sacolas de grife madames com seus cachorrinhos na cestinha, russos esparrentos, emos, hippies e cavinatos, de tudo circula por Paris em duas rodas.

    O Vélib’, self-service quase gratuito de bicicletas da prefeitura, é um grande sucesso. Funciona simples assim: você vai até uma das mil e duzentas estações do serviço espalhadas pelas ruas da cidade e compra uma assinatura no terminal eletrônico, obrigatoriamente com um cartão de crédito. Pode ser para um dia, uma semana ou um ano. Para a de 24 horas, paga-se apenas €1 euro. A de um ano custa apenas €29. Com o cartão de assinatura na mão é só escolher a bicicleta pelo número, colocar no terminal a senha que você reistrou e o camelo escolhido é liberado automaticamente.

    A primeira meia hora é de graça, a segunda custa €1 e o preço aumenta bem de mansinho. Você pedala feliz por Paris e, quando sua poupança estiver quadrada, engata a bicicleta na estação mais próxima. Tudo garantido pelo seu cartão de crédito, que será descontado em €150 se você inventar de não devolver o patrimônio à prefeitura de Paris.

    O fato de a assinatura de um dia custar tão pouco engajou a turistada no projeto e, realmente, locomover-se de bicicleta por Paris é uma barbada, muito mais barato e rápido – se a distância for curta – do que pegar o metro, que custa €1,60. Mas o principal cliente do Velib’ é o parisiense, aquele sujeito que anda com o baguete embaixo do braço. E para isso todas as bicicletas tem uma cestinha para o seu pão, poodle ou sacolinha da Fnac, além de luzes de sinalização, buzina trim-trim e até corrente com fechadura. O negócio funciona que é um aço.

    “Ah”, diria você agora, “mas no primeiro mundo as coisas são diferentes”. Até são, meu caro Watson, mas nem tanto.

    Desde a sua inauguração, mais ou menos um ano atrás, três mil das 16 mil bicicletas do Velib’ desapareceram. Há notícias de reaparecimento de uma delas na Romênia. Além de outra que materalizou-se na Austrália, veja só. Além disso, outras três mil foram destruídas ou danificadas.

    A conta é de 37,5% das magrelas fora de circulação, número bem terceiro-mundista que, se consolidado em Porto Alegre, ilustraria capa da Zero Hora com foto do secretário municipal lamentando a falta de educação do povo.

    Mas não, os parisienses não desitiram da idéia, nem jogaram a responsabilidade do percentual acima nos ombros dos turistas terceiro-mundistas, ou dos imigrantes negros da cidade-luz. A coisa foi adiante e hoje a bicicleta cinza já é uma característica nova e marcante das ruas centrais de Paris.

    Diga um número de 1 a 6000.

    Diga um número de 1 a 6000.

    Finlândia, Estados Unidos e Austrália planejam sistemas similares. O que me leva a suspeitar que foi o prefeito de Sidney quem roubou a tal bicicleta que apareceu entre os cangurus.

    Mas nem tudo são flores. Os motoristas reclamam do repentino aparecimento de milhares de novos ciclistas na cidade, muitos deles sem habilidades duas-rodísticas. Reclamam do espaço que as estações do Velib’ roubaram dos estacionamentos públicos.

    Reclamam das ciclovias. Reclamam mas não tem jeito, veio para ficar. O próximo passo da prefeitura é colocar carros elétricos no mesmo esquema de aluguel e assim contribuir ainda mais para a despoluição do ar da cidade. E, vejam só, o serviço deu um lucro de €20 milhões no primeiro ano com custo zero para os contribuintes.

    Como isso foi possível? Simples: parcerias público-privadas, companheiro. A gigantesca operadora de mídia externa JCDecaux pagou por tudo em troca de mil e seiscentos espaços de publicidade em Paris. O que nos leva a concluir que além de gigantesca ela também é inteligente, pois ganhou território valioso em uma das cidades mais importantes do mundo conectando o seu nome a essa iniciativa nobre, simpática, auto-sustentável e despoluidora.

    Ou seja, roubo e vandalismo não são privilégio brasileiro, mas uma praga que não livra nem a cara dos países desenvolvidos. Empresas de publicidade podem contribuir com um mundo melhor e ainda ganhar dinheiro com isso. Prefeitos criativos tornam suas cidades melhores. Motoristas são rabujentos e egoistas dos dois lados do oceano. E bicicletas são legais.

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