Buenas!
Talvez tu não me conheça. Meu nome é Gaúcho Maneta. Moro desde 1935 na Loureiro da Silva, esquina com a Luiz Englert em Porto Alegre. E a minha diversão é ver o movimento do Parque da Redenção. Na verdade, meu nome de batismo é Gaúcho Oriental. Mas em 2004 uns ladrõezinhos guaipecas deram de mão no meu laço e, no entrevero, quebraram a minha mão a pedrada. Tempos depois acordei maneta, pois outros, ou os mesmos guaipecas acabaram por levar a mão quebrada de lambugem.
Isto já faz uns seis anos e sigo maneta. Volta e meia passa um vivente e fica me olhando, tentando imaginar o porquê de uma estátua de gaúcho sem a mão direita na esquina do Parque da Redenção.
Eu não digo nada. Mas observo. E penso.
Penso que atacar um símbolo do Rio Grande assim no más já fez a gauchada se envaretar e se unir. E querer briga. Hoje, parece que a gente gosta mesmo é de brigar uns com os outros.
Penso também que um gaúcho maneta tem lá o seu simbolismo. Perdemos o pulso das côsas? Deram de mão no que é nosso? Tamo precisando de uma mãozinha? Tem madrugada fria que eu fico solito depois da peonada ir embora do parque, espantando o tédio pensando nestas frescuras filosóficas.
Outras vezes fico pensando que, do jeito que o gaúcho anda dirigindo e as tragédias que anda provocando, talvez eu tenha virado o neo-símbolo do Estado, o Gaúcho Maneta no volante.
E quando me passa um engraçadinho e diz que eu tô desmunhecado, aí é que me ferve o sangue maragato e me dá gana de passar no fio da adaga os secretários e prefeitos que não fizeram nada pra me tirar desta situação.
Talvez, penso eu, se estivesse mais perto do aeroporto, como o meu irmão Laçador, ou ao lado do Gasômetro, como a guriazinha Elis, quem sabe não tinham dado um jeito na minha manetice.
Aqui no Rio Grande se costuma dizer que “quem pensa, não casa.” Bueno, parece que é o meu caso. Mas também fica difícil eu arranjar uma prenda parado aqui nesta esquina. Pois de dia elas passam correndo pra manter a forma. E de noite, passam correndo dos ladrões.
Mas vou levando a vida. Talvez uma hora destas uma alma caridosa passe por aqui e se comova com o estado mulambento em que estou, sem a mão e com o laço estraviado. E diga para alguém lá no palácio, ou na prefeitura, que isto não se faz com um gaúcho. Até chegar esta hora, vou levando a vida e lembrando com saudade de como admiravam a nossa educação e civilidade. E na falta de conserto, me apoiando na lembrança dos versos do bagual Caco Coelho pra dizer o que sinto:
Queria que, de repente, tudo fosse diferente,
da vida que tenho aqui;
Da cidade ir me embora, viver a vida de outrora,
dos meus tempos de guri.
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- 2009-09-10 No articles on this date.















