Em 1974, o economista Edmar Bacha criou uma expressão que, até pouco tempo, ainda definia a distribuição de renda no Brasil: Belíndia, uma mistura de uma pequena e riquíssima Bélgica encravada em uma enorme e paupérrima Índia. A palavra encaixou-se como uma luva no momento do país e foi usada à exaustão por outros economistas, professores, jornalistas e políticos pelas décadas que se seguiram.
Hoje podemos afirmar que não existe mais uma Belíndia. Ok, estamos muito, mas muito longe do ideal, mas a comparação com a Índia de 1974 não se encaixa mais em um Brasil que vive o melhor momento sócio-econômico de sua história graças a inúmeros fatores externos e internos que favoreceram o nosso desenvolvimento.
O Brasil de hoje também não é mais uma Bélgica. Com todo o respeito aos belgas, ele ocupa uma posição de destaque no cenário internacional que o pequeno país europeu nunca teve, por mais que de lá tenham saído Django Reinhard, Magritte e Rubens, além de ser o berço da melhor cerveja do mundo, do saxofone, do Tintin e da escola belga de quadrinhos (ok, Jean-Claude Van Damme também é belga. Mas tem a Audrey Hepburn para contrabalançar).
Aos poucos, vamos crescendo. E aos trancos e barrancos vamos tentando evoluir, tropeçando nas próprias pernas longas deste crescimento para ultrapassar a nossa adolescência como sociedade.
É notório que há mais dinheiro. Que tem frango na mesa do pobre. Que temos acesso à tecnologia sem as restrições do passado. Que as soluções mágicas, sejam elas planos econômicos mirabolantes ou golpes de estado, estejam quase desaparecendo no retrovisor do país. Mas será que já estão presentes neste cenário tão favorável os ingredientes fundamentais para que o país realmente ofereça um salto de qualidade de vida para os brasileiros?
Outro dia, na palestra do Fronteiras do Pensamento em Porto Alegre, o neurocientista Miguel Nicolelis, quando perguntado sobre o futuro do Brasil, respondeu:
- O conhecimento, acima de qualquer coisa, é o verdadeiro agente de transformação de uma nação.
O doutor Nicolelis é um dos brasileiros mais brilhantes que eu já tive o prazer de ouvir e falou com paixão e entusiasmo sobre o futuro que ele imagina para a ciência e para o país. E tocou em uma questão importante.
É do conhecimento que vem a educação. A civilidade. O crescimento como ser humano. E, sim, a riqueza material. É ele que abre a porta de mundos muito distantes, amplia o horizonte de quem só prevê nuvens cinzas no seu futuro.
Um país que democratiza o conhecimento tem menos motoristas intolerantes. Menos gente no tráfico. Menos crianças na prostituição. Menos políticos amorais. Menos funcionários públicos incompetentes. Menos doentes. Menos armas. E, por consequência, menos mortes por acidente de trânsito, overdose, doenças sexuais, insuficiência pública, epidemias, tiros.
A Belíndia ficou mesmo para trás, mas deu lugar ao Suistão. Uma Suiça onde os bancos são confiáveis, os relógios são suíços e o povo fala várias línguas. Cercada por um Qualquerdistão que rouba bancos com dinamite, onde se mata no semáforo pelo Rolex e o povo não fala nem o português.
Mais uma pergunta para o doutor Nicolelis: “O que o senhor faria se fosse presidente da república?”
- Eu colocaria os ministros da Economia e da Fazenda lá atrás. E, bem na frente, os ministros da Educação, da Cultura e da Saúde, e perguntaria para estes últimos: o que precisamos fazer? Com a resposta na mão, diria para os ministros da Economia e da Fazenda: tornem isso possível.
Eu morei na Belíndia e, atualmente, fixei residência no Suistão. Meu sonho é que meus filhos possam morar, com orgulho e confiança no futuro, neste país maravilhoso que pode ser o Brasil.
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- 2009-09-08 No articles on this date.





















