O Zé Pedro Goulart, além de grande diretor de cena, pai da Paris e conselheiro do Grêmio, também escreve na Zero Hora sexta-feira sim, sexta-feira não. Na última, 26 de setembro, fez uma análise muito interessante sobre o Lula e a dificuldade que nós, elite branca brasileira, temos de aceitá-lo sem piadinhas ou comentários desabonadores e faz um desabafo: “Eu também quero amar o Lula”, diz o Zé Pedro já no título da sua coluna.
Por pura coincidência, ou não, como diria o Caetano, o Juremir Machado da Silva, colunista do Correio do Povo, faz uma comparação deveras interessante entre o Machado de Assis, 100 anos de morte, e o Lula da Silva, na sua coluna desta segunda, 29 de setembro, sob o título “Machado da Silva”, uma combinação dos sobrenomes das duas figuras que acaba formando o sobrenome dele mesmo, Juremir. Diz o colunista que ambos, pobres e sem educação formal, chegaram lá, apesar dos obstáculos.
Mas antes que você troque para o blog da Escala ou da DCS porque eu estou falando de política, ou porque detesta o Lula ou Machado de Assis ou o Zé Pedro ou o Juremir, por favor, me dê mais um minuto. Meu assunto aqui não é nenhum deles em especial, mas algo que nós, brasileiros, praticamos e alimentamos sem perceber: a nossa síndrome de vira-lata.
A revista Esquire, na sua edição americana (sai também na Inglaterra e na Espanha) de 75 anos, nas bancas agora, se propôs a indicar as 75 pessoas mais influentes do século 21. Não as mais bem-vestidas, nem as mais bonitas, nem as mais corruptas, mas aquelas com as idéias que estão moldando o mundo agora para o futuro. São apenas 75 vagas para um mundo de 6.5 bilhões de habitantes. E lá está o Lula entre ganhadores de nobéis e pulitzers, chefes de estado, designers, cientistas, cineastas, milionários que vieram do mundo digital e CEOs.
Mas, repito, não estou falando sobre o Lula, mas sobre nóis. Nóis, que chineleamos o Lula, a seleção, o cinema nacional e o Celso Roth. Nóis que achamos que tudo que vem de fora é melhor, por mais que o Bush faça cacaca na casa branca e tenha que remendar socializando o prejuízo do mercado. Por mais que o Massa dirija bem e os gênios da Ferrari inventem brinquedinhos tecnológicos como o “pirulito eletronico” que acabou com o piloto em Cingapura. Nóis que sempre temos uma frase irônica ou cínica sobre nóis mesmos.
Pois é. Nóis somos fogo, pessoal. E podemos fazer qualquer coisa, basta ter a persistência, a coragem e a criatividade que a nossa síndrome de vira-lata costuma esconder. Pense nisso. Porque é tudo com nóis.
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