Quando eu era pirralho, ouvi uma história assustadora feita para fazer criança comer tudo o que está no prato. É a lenda do Panelão do Céu.
Dizem que na entrada do céu há uma enorme panela esperando pela sua chegada. Toda a vez que você deixa alguma sobra no prato, é feito um upload automático do alimento que você rejeitou para o Panelão do Céu. O conteúdo é cumulativo, tudo que você vai deixando de comer vai direto pro Panelão. Bife de fígado, salada de chuchu, mondongo, espinafre e outras heranças da sua infância; meio décimo cachorrinho, as alcaparras do molho da sua tia, os verdes moles e escurecidos do xis salada, provenientes da sua adolescência; todos os excessos do bufê livre que você não conseguiu comer e os salgadinhos fashion de inúmeras festas, recepções e casamentos que a sua gula visual fez você colocar no prato e abandonar; todo esse conteúdo gerado pela sua falta de avaliação ou critério vai para o Panelão do Céu.
O terror com as crianças consiste no seguinte: quando você morrer, pra entrar no céu, tem que comer tudo o que tem no Panelão. Na verdade, o terror é duplo, pois não só os alimentos são uma espécie de seleção dos piores de todos os tempos segundo o seu próprio critério pessoal, mas também estão juntos, provavelmente sendo constantemente misturados por um anjo resgatado das camadas mais profundas do inferno.
Imagine que a internet é um grande panelão. Lá, todo o conteúdo gerado por bilhões de CPFs e CNPJs é constantemente misturado sem o menor critério. Assim como na culinária, as tendências vêm e vão. Uma hora é o purê de mandioquinha, outra, o Cala a Boca Galvão. O creme de mamão papaia com licor de cassis sai dos restaurantes dos Jardins e vai parar nas churrascarias, assim como o Orkut deixa de ser bacana e descolado para virar reduto dos bad boys.
Palavras, pensamentos e ações que constroem a presença de alguém na rede não são apagadas jamais. É tinta de caneta bic azul na roupa colorida: até sai, mas fica uma mancha esbranquiçada. Por mais que a internet e, principalmente, as redes sociais sejam territórios de livre-pensar, ao mesmo tempo não se pode pensar que dá pra fazer qualquer coisa sem esperar consequências.
Há um princípio universal de causa e efeito que diz que nossas ações, positivas ou negativas, acabam voltando para nos afetar no futuro. Cabe a cada um usá-las como lições de vida, saindo do episódio melhor do que entrou. Informalmente, esta é a definição de Karma.
Digo tudo isso porque você ainda vai se deparar pela frente com a expressão Social Karma. Provavelmente dito por um guru da internet, provavelmente em uma palestra sobre a presença das marcas nas redes sociais.
Se isto acontecer, levante o braço, faça uma cara confiante e pergunte ao especialista se ele já ouviu falar do Panelão do Céu. Se ele não conhecer, conte a história. E prove pra ele que os nossos pais eram especialistas em redes sociais antes mesmo da internet existir.
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