• 15Jun

    Carlos Saul Duque

    Quando eu era pirralho, ouvi uma história assustadora feita para fazer criança comer tudo o que está no prato. É a lenda do Panelão do Céu.

    Dizem que na entrada do céu há uma enorme panela esperando pela sua chegada. Toda a vez que você deixa alguma sobra no prato, é feito um upload automático do alimento que você rejeitou para o Panelão do Céu. O conteúdo é cumulativo, tudo que você vai deixando de comer vai direto pro Panelão. Bife de fígado, salada de chuchu, mondongo, espinafre e outras heranças da sua infância; meio décimo cachorrinho, as alcaparras do molho da sua tia, os verdes moles e escurecidos do xis salada, provenientes da sua adolescência; todos os excessos do bufê livre que você não conseguiu comer e os salgadinhos fashion de inúmeras festas, recepções e casamentos que a sua gula visual fez você colocar no prato e abandonar; todo esse conteúdo gerado pela sua falta de avaliação ou critério vai para o Panelão do Céu.

    O terror com as crianças consiste no seguinte: quando você morrer, pra entrar no céu, tem que comer tudo o que tem no Panelão. Na verdade, o terror é duplo, pois não só os alimentos são uma espécie de seleção dos piores de todos os tempos segundo o seu próprio critério pessoal, mas também estão juntos, provavelmente sendo constantemente misturados por um anjo resgatado das camadas mais profundas do inferno.

    Imagine que a internet é um grande panelão. Lá, todo o conteúdo gerado por bilhões de CPFs e CNPJs é constantemente misturado sem o menor critério. Assim como na culinária, as tendências vêm e vão. Uma hora é o purê de mandioquinha, outra, o Cala a Boca Galvão. O creme de mamão papaia com licor de cassis sai dos restaurantes dos Jardins e vai parar nas churrascarias, assim como o Orkut deixa de ser bacana e descolado para virar reduto dos bad boys.

    Palavras, pensamentos e ações que constroem a presença de alguém na rede não são apagadas jamais. É tinta de caneta bic azul na roupa colorida: até sai, mas fica uma mancha esbranquiçada. Por mais que a internet e, principalmente, as redes sociais sejam territórios de livre-pensar, ao mesmo tempo não se pode pensar que dá pra fazer qualquer coisa sem esperar consequências.

    Há um princípio universal de causa e efeito que diz que nossas ações, positivas ou negativas, acabam voltando para nos afetar no futuro. Cabe a cada um usá-las como lições de vida, saindo do episódio melhor do que entrou. Informalmente, esta é a definição de Karma.

    Digo tudo isso porque você ainda vai se deparar pela frente com a expressão Social Karma. Provavelmente dito por um guru da internet, provavelmente em uma palestra sobre a presença das marcas nas redes sociais.

    Se isto acontecer, levante o braço, faça uma cara confiante e pergunte ao especialista se ele já ouviu falar do Panelão do Céu. Se ele não conhecer, conte a história. E prove pra ele que os nossos pais eram especialistas em redes sociais antes mesmo da internet existir.

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  • 28Apr

    Clive Thompson escreve sobre ciência, tecnologia e cultura. Contribui para a o New York Times e é colunista da Wired Magazine. Escreve na web também, para a Fast Company e para a Wired, onde publicou o artigo cujo link está logo abaixo.
    Gostei muito da abrodagem antropológica que ele fez sobre a solidão online, principalmente pela análise ter sido feita em cima do twitter, uma rede adolescente que ainda não parou de mutar conforme milhões de mensagens e novos tuiteiros vão entrando nela. Confira. E conheça um pouco mais do pensamanto de Clive Thompson no twitter ou no seu blog.

    link: Clive Thompson in Praise of Online Obscurity

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  • 05Apr

    Carlos Saul Duque

    Vi “This is it”, o documentário sobre a última turnê de Michael Jackson. Aquela que não saiu. Confesso que não estava muito a fim, mas o convite para o telão com blue ray do amigo era irrecusável. Não pelo filme, mas pela companhia. E fui.

    Não me arrependi. Como filme, “This is it” é fraco. Como documentário, apenas um registro. Se Michael Jackson não tivesse morrido, seria mais um making of de turnê (se é que seria montado e lançado, pois a maior parte das cenas foi feita para os registros pessoais dele). Só que M.J. é magnético. Mesmo fraco e deformado, sua personalidade é um imã gigantesco, quase um experimento sobre a doideira humana, a fama, a criação e tudo que gira ao redor do mundo pop.

    Vamos deixar claro uma coisa antes de avançarmos: sou fã do Jacko, achava ele um grande artista, genial até. Se era louco ou não, acho que nem precisamos discutir. No documentário, a insanidade do sujeito desfila a passos largos. Mas é tratada com muito respeito pela câmera. Só que junto com a loucura vem a genialidade, o perfeccionismo e a criatividade de um personagem que moldou a cultura pop desde os seus dez anos de idade.

    Michael Joseph Jackson tocava piano, violão e diversos instrumentos de percussão. Além de cantar, dançar e atuar, escrevia e compunha canções, além de ser produtor e coreógrafo. Nos seus cinquenta anos de vida (e mais de 40 de carreira) quebrou recordes e paradigmas do mundo pop – além de quebrar financeiramente a si mesmo.

    Em “This is it” dá pra ver tudo isso passando em slow motion pela frente. O show era pra ser memorável. Cada detalhe do perfeccionismo de M.J. é exercitado nos ensaios e nas aprovações de cenários e penduricalhos de centenas de milhares de dólares que vão sendo mostrados durante o filme. Explosões, cemitérios de mortos-vivos, florestas tropicais, está tudo lá, mostrando o passado glorioso e as crenças pra lá de duvidosas do único americano que nasceu preto e pobre para morrer branco e rico.

    Mas o mais fascinante não é o dinheiro, nem a mobilização, mas o próprio Michael Jackson. É fantástico ver de perto o mundo criado por ele, e que só pode existir ao redor dele. M.J. tem o tom de voz de uma criança tímida, agradece o tempo todo, mas a personalidade da criatura que sempre traçou o seu caminho, sempre fez do seu jeito, está sempre presente. A fragilidade física é aparente, principalmente quando os robustos dançarinos de vinte e poucos anos mostram com todos os músculos o poder das suas coreografias. A voz está todo o tempo sendo poupada e pouco se houve dela. Mas a graça do dançarino e a afinação do cantor estão lá, presentes em cada gesto dele. E isto é emocionante.

    A reverência com que todos o tratam também é impressionante. Uma cena é emblemática: os dançarinos da turnê, recrutados ao redor do mundo, são entrevistados logo após a seleção final. E todos choram copiosamente pela oportunidade de trabalhar com Michael, tem em Michael o seu exemplo e seu ideal. O público na porta do teatro segue histérico, como se estivéssemos nos anos 80. E muitos dos que se desesperam para tocar o ídolo nem sequer eram nascidos na época.

    M.J. é o rei do pop. Mais do que isso, ele é o maior rei da história do mundo ocidental. Ninguém tem a sua majestade, nem o número de súditos. E se tem, com certeza não tem o amor incondicional de todos eles. Por trás do freak, do Wacko Jacko, do Peter Pan auto-mutilado, do dandão fascinado por criancinhas, há um artista cujo legado é inacreditável.

    Acho que Michael Jackson começou a morrer no momento em que aceitou fazer a turnê, um esforço físico e mental que já estava além das suas forças. Ao longo do documentário, vê-se a sua pouca energia se esvaindo no esforço de tentar acompanhar os adolescentes movidos a toddy que dividem o palco com ele. Michael Jackson vai morrendo aos pouquinhos na frente de todos, e todos não sabem do final trágico da história. E eu, sentado na frente do telão com blue ray, fico imaginando se ele sabia que a imortalidade, essa ingrata, só serve para os outros. Pois sempre chega depois que o principal interessado já foi desta para melhor.

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  • 24Mar

    Carlos Saul Duque

    A curadoria da exposição de cartazes do Pixel Show Porto Alegre fez um convite pra lá de bacana para a Dez: ter uma vaga no meio de um monte de cobras. Pra responder o convite com pompa e circunstância, resolvemos fazer um concurso entre os D.As./designers/ilustradores da Dez. O resultado está a seguir.

    Mas precisamos da sua ajuda para decidir. Vote no seu cartaz preferido através de um comentário no blog, anotando o nome do autor e o número do cartaz. E depois vá conferir no Pixel Show o resultado.

    A Dez agradece.

    VOTAÇÃO ENCERRADA. MUITO OBRIGADO PELA SUA PARTICIPAÇÃO.

    #1 Mariana das Virgens

    “A olheira é o reflexo do esforço da alma. Muitas vezes ela marca o
    tortuoso caminho para chegar a uma terra (mítica?) de tranquilidade. Elas
    são lembretes de lutas e provações impregnados na carne.”

    #2 Andrey Damo

    “Eu de fato me preocupo com a possibilidade de ficar sem àgua potável daqui alguns anos. Também fico consternado com a possibilidade de novos “tsunamis” varrerem povos mundo afora. Mas realmente acho que os guarda-chuvas deveriam ser maiores e, quando cai um toró, meus tênis ficam completamente molhados.”

    #3 Andrey Damo

    “No layout há um guarda-chuva e três gotas. É só uma garoa fina. Então, seja otimista, não veja uma lágrima.”

    #4 Giovanni Pereira

    “Um cartaz homenagem a artistas de verdade. Àqueles que escrevem, pintam, ilustram, atuam, por verem um mundo diferente, ainda que sufoquem com isso.”

    #5 Giovanni Pereira

    “Um mundo cada vez mais inovador, onde a novidade já chega velha, obsoleta. Os novos ídolos surgem com data de validade. Leia Shakespeare.”

    #6 Mayume Mizoguchi

    #7 Mayume Mizoguchi

    #8 Marco Boni

    “Impulsos do inconsciente representados em forma gráfica. Múltiplas faces do indivíduo moderno.”

    #9 Marco Boni

    “O inconsciente expressa seus desejos. O virtual e o orgânico se fundem, o medo e a voracidade se repelem.”

    #10 Guilherme Dorneles

    “Organismo em mutação, um fluxo abstrato de idéias. Pensamentos em processo de digestão.”

    #11 Gabriel Costa

    “Os Beatles, pra mim, é referência e inspiração máxima da criatividade aplicada ao trabalho e às artes.
    Depois de se tornarem a maior banda do mundo, resolveram trabalhar e expandir suas mentes e obras pra se tornar algo maior ainda. E conseguiram com qualidade. Com o passar do tempo seu trabalho tornou-se cada vez mais consistente e rico até virar um potencial sonoro e visual jamais visto. Na ilustração, tento homenagear os meus ídolos e relembrar da mensagem que eles passaram pro mundo e que pode ser servida de exemplo a todos.”

    #12 Felipe Ruskowski

    “Do cheiro do asfalto o graffiti, dos grandes salões o sacro, do desconhecido a imaginação.”

    #13 Matheus Trevisan

    “Brincando de photoshop e ouvindo isso acaba se tornando auto-explicativo.”

    #14 Matheus Trevisan

    “Ilustração digital que mistura referências de artistas que eu curto. A brincadeira com sobreposição de cores no lettering resultou na anulação de ambas. Escolha da palavra totalmente aleatória.”

    #15 Juliano Weide

    “Com toda a expectativa e exigência que o mundo nos pressiona hoje, muitas vezes não podemos parar. Então o “update” não acontece ou o simplesmente o ‘link se perde’. A busca desenfreada por informação, não nos dá descanso. Um momento de pausa.”

    #16 Juliano Weide

    #17 Mariana Couto

    “O trabalho brinca com o conjunto de linhas, cores e sombras, gerando uma ideia de profundidade.”

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  • 16Mar

    Carlos Saul Duque

    1. O homem azul

    O americano Paul Karason foi ficando azul aos poucos. Ele começou a azular aos 14 anos sem razão aparente. Dica do blog: antes de iniciar qualquer tratamento dermatológico como medicamento à base de prata coloidal, consulte o seu médico.

    2. Cocô Surf

    Porto Alegre foi a capital dos esportes radicais por um dia em 2009. Veja porquê.

    3. Robôs gigantes

    Mania de japonês levada ao extremo. Robôs de até 50 toneladas podem ser encontrados em vários cantos do país como o Wakamatsu Park, em Kobe, e no Shiokaze Park nos arredores de Tóquio, ambos construídos durante 2009. São super-réplicas de personagens da TV ou quadrinhos. Gundan, o robô branco abaixo, pertence a uma das mais famosas séries da TV japonesa.

    4. Até que a morte…

    Em novembro de 2008, Magali Jaskiewicz e Jonathan Goerge moravam juntos havia seis anos e já tinham duas filhas quando deram entrada nos papéis e marcaram o casamento para janeiro de 2009. Dois dias depois, Goerge morreu. em um acidente. Magali, pra não jogar os bem-casados fora, apoiou-se um artigo do código civil francês que permite o casamento com uma pessoa falecida se ela já havia oficialmente dado início ao processo formal para realizar a união.

    5. Nerd japonês se casa com personagem de videogame

    Identificado apenas como Sal9000, o sujeito casou-se com um personagem do game Love Plus, do console Nintendo DS. O casamento foi celebrado em festival de tecnologia em Tóquio por um padre (que insistiu que a cerimônia não era de verdade). O nipogamer, antes do casamento “religioso”, já tinha celebrado a união civil em uma praia japonesa, onde as leis quanto ao matrimônio são menos rígidas.

    6. Os amigos bizarros do Ricardinho

    De Viamão para o mundo. Depois do Festival de Brasília, o insólito “Os amigos bizarros do Ricardinho”, do diretor Augusto Canani, começa sua carreira internacional no festival New Directors/New Films no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. O curta foi o único trabalho selecionado em toda a América Latina. Ricardinho Lilja é um personagem da vida real: é arte-finalista e já trabalhou em várias agências de Porto Alegre – a Dez entre elas. Canani foi Diretor de Criação da Dez e está no seu segundo curta. Dica de quem já viu: bizarro é apelido para os amigos viamonenses do Ricardinho.

    7. Gênios da raça

    Na falta de máscaras, os ladrões americanos Matthew Alla McNelly e Joey Lee Miller pintaram a cara com caneta permanente e escreveram seus nomes nos anais da burrice mundial. Merecem perpétua.

    8. Sutiã anti-terror

    Paródia do Nobel, o IgNobel elege as pesquisas mais inusitadas e é patrocinado por uma revista de humor da Universidade de Harvard, a Annals of Improbable Research (ou “Anais da Pesquisa Improvável”). O grande prêmio de saúde pública 2009 foi para a equipe de Elena Bodnar, de Hinsdale, Illinois, que desenhou e patenteou um sutiã que pode ser convertido rapidamente em duas máscaras de gás: um para a usuária do sutiã e outra para alguém próximo que estiver em apuros.

    9. Lingerie Football League

    Desde 2003 nos intervalos das partidas de futebol americano, os jogos com meninas em lingerie ganharam a sua liga em 2009. A Lingerie Football League nasceu com 10 equipes: Philadelphia Passion, Chicago Bliss, Miami Caliente, Tampa Breeze, Dallas Desire, New York Majesty, Denver Dream, Los Angeles Temptation, San Diego Seduction e Seattle Mist.

    10. O livro dos fatos insólitos

    Ele não saiu em 2009, mas resolvi fazer uma homenagem a este pequeno grande livro editado em 1993 pela LP&M. Durante anos o jornalista Michel Vergez foi operador de telex (lembra?) da agência de notícias France Press e colecionou centenas de pequenas notícias bizarras enviadas para a AFP. O “Pequenas Notícias” tem histórias sensacionais. Reproduzo uma das minhas preferidas para você correr ao sebo mais próximo e comprar.

    Nariz de Cera*
    LONDRES, 13 set/89 (AFP) – Um jornal jurídico inglês muito respeitado acaba de chamar a atenção dos motoristas para o perigo de limpar o nariz enquanto aguardam o sinal abrir. O Solicitor’s Journal, ao reproduzir a história do jornal médico Lancet, cita o caso de um chofer cujo carro foi abalroado por trás enquanto aguardava o sinal abrir.O chofer, coberto de sangue, tinha sido levado para o hospital, onde os médicos constataram que o ferimento era desproporcional em relação à violência do choque. Depois de um exame demorado, eles descobriram que, no momento do choque, um dedo do motorista no nariz rompeu uma pequena artéria, provocando uma hemorragia e o desmaio da vítima.
    (Extraído de VERGEZ, Michel. “Pequenas Notícias: telex da Agência Frence Press”. Porto Alegre: L&PM, 1993)
    * O termo  “nariz de cera”, na gíria jornalística, diz respeito ao texto preambular, muitas vezes dispensável, cujo conteúdo não acrescenta maiores informações sobre o fato.

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