@saulduque
Dias atrás, comentei um artigo na Zero Hora intitulado “De pernas para o ar“ através do blog da Dez. O meu texto, intitulado “Chega”, acabou também no jornal. Uma pessoa que admiro muito, Lícia Peres, acabou respondendo o meu artigo e… para encurtar a história, resolvi postar todos os artigos, mais um texto que recebei de uma leitora de Zero Hora aqui neste espaço. Sem comentários, sem explicações, mas na sequência em que forma produzidos, para nossos leitores seguirem a cadeia de pensamentos sobre o tema e tirar suas próprias conclusões.
De pernas para o ar
(publicado na Zero Hora em 3 de novembro de 2009)
—
Patricia Azevedo da Silveira
Doutora em direito, advogada e professora universitária
—
Criada no início do século 20 e concebida para segurar as meias 7/8, a cinta-liga feminina revelou-se ao mundo nos bordéis europeus para saciar estritamente o imaginário erótico masculino. Representava, enquanto signo, o fetiche e a pornografia. Enquanto isso, a maior parte das mulheres ocidentais vestia ceroulas abaixo dos joelhos, as índias andavam nuas e as personagens da literatura eram como a Emma, de Madame Bovary, entediadas pelos casamentos sem amor.
Progressivamente, a revolução tecnológica e o movimento feminista pela igualdade entre os gêneros contribuíram com a libertação da mulher da culpa, por conta da expulsão do paraíso, e ela pode revelar todas as suas qualidades.
Mas por que essas referências históricas?
Neste ano, a Feira do Livro, principal evento cultural do Rio Grande do Sul, adotou, como um dos logotipos presentes nos marcadores de livros, totens, camisetas e campanhas institucionais, a imagem de um par feminino de pernas, voltadas para o ar, que vestem cinta-liga e meias 7/8, onde se lê: “Tem sempre uma emoção esperando por você”.
Não será grotesco que, para a multiplicação de leitores, se caia na vulgaridade de tomar a mulher como mero objeto da sexualidade masculina? É certo que a vulgaridade atingiu a política, a televisão e tenta arrombar as portas da literatura. Muito menos o patrono da 55ª Feira, um poeta lírico e criativo, dedicado à excelente criação da literatura infanto-juvenil, merecia essa demonstração de vulgaridade explícita. Sequer o termo “você” é típico da linguagem oral ou escrita neste Estado.
Não precisamos desses apelos para garantir o seu êxito. Ler é compreender a alma humana em sua totalidade. Não proponho, como compensação, que, em evento futuro, faça-se o inverso, pondo-se a mulher a mergulhar com pés de pato, logotipo escolhido para representar o homem. A riqueza de tudo aquilo que o livro, o ser humano e a Feira representam deve ser protegida contra esses rasgos de vulgaridade e de machismo.
Não importa a profissão da mulher, se operária, juíza ou escritora. Ela pode ser fêmea e pensadora. Com esse gesto, Susan Sontag, Rosa Luxemburgo, Madame Blavatsky e tantas outras não foram convidadas para esta Feira, nem nós.
Chega!
(publicado neste blog em 4 de novembro e na Zero Hora em 6 de novembro de 2009)
—
@saulduque
—
A primeira vez que eu ouvi a Ópera do Malandro, do Chico Buarque, tinha uns 16 anos. Se você ainda não ouviu, recomendo. Grande trabalho do Chico lançado em 1979. Entre canções e intérpretes fantásticos como Zizi Possi, Moreira da Silva e Maria Bethânia, Chico cita musicalmente Brecht, Biset, Verdi e Wagner.
Uma das músicas que mais me chamou a atenção no disco foi “Geni e o zepelim”, canção que conta a história da prostituta que, desprezada e agredida por todos, salva a comunidade ao dormir com o militar que quer destruir a cidade. Para, na manhã seguinte, ser sádica e novamente apedrejada pela população tão logo o militar e o perigo vão embora. Os versos do Chico viraram bordão:
Joga pedra na Geni, joga bosta na Geni, ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir, ela dá pra qualquer um, maldita Geni.
Da ingenuidade dos meus 16 anos (sim, na época os garotos de 16 eram ingênuos), não compreendia direito a grande crítica política que o Chico fazia. A história se passa nos anos 40, época de Getúlio Vargas, mas sutilmente a sociedade brasileira e a ditadura militar no final dos anos 70, já nos seus extertores, são dissecadas na ópera com todo o talendo de Chico Buarque.
Geni é com certeza uma das personagens mais marcantes. E a mais sofrida. Virou sinônimo de quem é linchado publicamente e, principalmente, de quem toma porrada sem muita razão, como se fosse o culpado de plantão.
Ontem, eu me senti Geni mais uma vez ao ler o texto da doutora Patricia Azevedo da Silveira, publicado na Zero Hora. O problema: na campanha institucional da Feira do Livro de Porto Alegre há um marcador de livro em forma de par de pernas femininas vestindo uma cinta-liga. Na visão dela, uma “demonstração de vulgaridade explícita”.
Um ingênuo marcador de livros, um dos vários da campanha que também tem pernas com pés de pato e rabo de dragão, imagens que complementam a boa e competente campanha da agência Matriz.
Por alguma razão que, sinceramente, não consigo entender, a propaganda e os publicitários são sempre escalados para o linchamento público e a desclassificação sumária. Publicitário é, via de regra, cidadão de segunda classe.
Não há o que a gente faça que mude esta situação. Campanha social e trabalho solidário. Hora extra de madrugada e no fim de semana. Campanhas brilhantes e prêmios internacionais para o Brasil. Patrocínio cultural, divulgação da música brasileira, excelência artística, dá pra ficar o dia todo falando nisso. Mas na necessidade de um vilão, sempre olham para o nosso lado.
Há mais de 30 anos a classe publicitária criou o seu Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária – Conar. Publicitários regulamentando publicitários? Só na aparência. O Conar tem hoje um conselho de 180 voluntários. 61% dos seus lugares são ocupados por não publicitários. 16% por advogados como a doutora Patrícia. Além de jornalistas (9%), engenheiros (5%) e médicos (2%), só para citar quatro categorias profissionais que se orgulham da sua profissão, das suas ordens e de seus conselhos. Mas que, ao julgar sua atividade – e que fique claro que isto é um direito deles e não estou criticando – convocam apenas profissionais da sua própria área para isso.
Os publicitários trabalham de portas abertas para a sociedade, prestando um serviço relevante para a indústria, o comércio e os serviços do país, de outros países e das comunidades onde se localizam. Não têm medo de ser regulamentados por esta mesma sociedade e acatam suas decisões. Mas, sob hipótese alguma, vão levar a culpa porque o mundo está virado, não se respeita mais nada ou tudo virou um grande bordel. Não generalizem, não nos joguem bosta. Não gostou, liga para o Conar.
E, por favor, não mande mais um texto para o jornal falando mal da propaganda. Chega. A nossa casa não é de tolerância. E Geni só existe na ficção.
Belas pernas
(enviado por email para a Dez em 9 de novembro de 2009)
Gabriela Leal Barreto Gehlen
Estudante de medicina
“Tem sempre uma emoção esperando por você”, diz o slogan publicitário da feira do livro este ano. Associado à frase, há um belo par de pernas femininas despontando em forma de marcador de livro. A alusão é clara: a promessa de prazer, alegria, encanto (especialmente o que nos vem em mente, entre outras emoções – “tem sempre uma emoção”) associados tão facilmente ao livro quanto à mulher.
Criativa, mas, ainda mais do que isso, a simbologia não deixa de ser uma provocação, aliás, muito inteligente e oportuna. Isso principalmente porque inserida neste contexto de feira de livros, uma celebração da arte, portanto. É que justamente o principal papel do artista é entrar em choque com os dogmatismos da sociedade, e o publicitário-artista acabou ilustrando o que também se espera dos livros da feira: fazer pensar, discutir, cutucar o dogma…
Digo isso porque o referido anúncio já bateu de frente com o que é talvez a mais ingênua cantilena, o dogma, o cânone do feminismo raso (e sempre muito em voga), que trata, naturalmente, da subordinação do sex appeal feminino a um suposto olhar masculino onipresente e opressor, que tornaria a tudo passivo e escravizado; ou, ainda, nas palavras do artigo do dia 03/11, “mero objeto de sexualidade masculina”.
Porém, é interessante lembrar que a objetificação sexual é característica humana, e que também não é “mera”, mas sim, se compara ao impulso artístico do esteta. Deste modo, frente ao consenso de arrogância que certos feminismos alimentam em resposta à valorização da beleza do corpo da mulher e ao reconhecimento (consciente ou não) do domínio psicológico que dele emana, ofereço as palavras de Camille Paglia quando esta nos diz que “O homem tem dominado tradicionalmente a esfera social; o feminismo lhe diz para sair do poder. Mas a mulher domina a esfera sexual e emocional, e nisso não tem rival. A ideologia de vítima, uma caricatura da história social, bloqueia à mulher o reconhecimento do seu domínio na esfera mais profunda e importante.”
Mas claro que só se pode entender, seja o par de pernas da feira do livro, a loira linda do comercial de cerveja, ou a modelo ao lado do carro lançamento, com essa compreensão, quando se tem por base as humanidades e a ciência biológica, ao invés de moralismos. Por isso que evoluiríamos infinitamente em autoconhecimento se tivéssemos olhos mais pagãos e não nos consternássemos tanto com o óbvio, o natural; feito isso e com um pouco de boas leituras digo até que talvez conseguíssemos abandonar paradigmas estagnados na alienação, na antinatureza, na negação dos próprios corpos, como também da derradeira e reprimida natureza pagã.
Enquanto isso restará aos escritores, aos diretores, aos filósofos, aos publicitários (…), enfim – e também a qualquer um que se aventure na liberdade criativa e no livre pensamento – o ataque dos que, por alguma razão, precisarão falsificar preconceitos com que se ofender a toda vez que a provocação da verdade vier à tona. Mas, novamente, eis aí o principal papel do artista: confrontá-los.
Protestem, sim
(publicado na Zero Hora em 9 de novembro de 2009)
—
Lícia Peres
Socióloga
—
Um dos maiores absurdos que li ultimamente foi o artigo “Chega”, assinado por Carlos Saul Duque (Zero Hora, 6 de novembro).
Inconformado com a crítica feita por Patrícia Azevedo da Silveira sobre um marcador de página criado especialmente para a Feira do Livro, o autor diz textualmente: “Por favor, não mande mais um texto para o jornal falando mal da propaganda. Chega”. E passa a comparar a propaganda, em geral, à personagem Geni, permanentemente execrada, da música do Chico Buarque.
Vários erros comete o senhor Duque. O primeiro é partir da premissa de que os publicitários são as grandes vítimas da nossa sociedade. Não é verdade. Há propagandas belas, emocionantes, poéticas mesmo, capazes de encantar a todos. Outras, apelativas, grosseiras e desrespeitosas, que têm merecido protestos veementes para sua retirada. O argumento de que os profissionais da área trabalham incansavelmente não é pertinente, nem justifica tudo. Apenas o esforço não garante bons frutos. Podem varar dia e noite, mas, se o resultado não é bom, são passíveis de crítica.
O movimento de mulheres inúmeras vezes conseguiu suspender aquelas propagandas que, preconceituosas e causadoras de dano, contribuíam para a manutenção de estereótipos. Quando integrava o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, em Brasília, reunimo-nos com o coordenador do Conar para ponderarmos sobre muitos abusos que vinham ocorrendo nessa área. Foi um encontro respeitoso e democrático.
Poucos ignoram que a comunicação exerce um papel importantíssimo para a formação da opinião pública. Assim, representa um potencial extraordinário de dinamização de comportamentos. A herança cultural que recebemos nos obriga a estarmos atentas a tudo aquilo que deseduca.
Infelizmente, só pude ir à Feira do Livro uma vez, e nem recebi o mencionado marcador.
Mas o que me indignou, de fato, foi a frase reproduzida no início do meu artigo, na qual o vice-presidente de Criação da Dez Propaganda, autoritariamente, decreta a interdição do direito de manifestação contrária à publicidade. Onde ele pensa que está? Que poder ele pensa ter para calar vozes dos que pensam diferente? Delirou?
A comunicação é, sobretudo, um instrumento valioso, um espaço disponível para a apresentação e sustentação de ideias, o campo argumentativo que contribui para o esclarecimento e a formação de pessoas conscientes. Mais educadas, portanto.
Linchamento mesmo foi o sofrido pela estudante da Uniban obrigada a suportar todo tipo de agressões, por usar um minivestido rosa. A ela é que a turba, tentando convertê-la na Geni, desferiu violento e covarde ataque.
O exercício da liberdade responsável se afirma quando, seja no que for, podemos, de maneira civilizada, manifestar nossa opinião, seja de concordância, seja de protesto.
Protesto!
(postado em 11 de novembro de 2009)
@saulduque
Prezada Lúcia Peres.
Perdoe-me tratá-la assim de você, mas sendo alguém que acompanho há muito tempo, sinto-me à vontade de deixar o tratamento formal de lado.
Achei válida e democrática a sua indignação com o meu artigo “Chega”, publicado na Zero Hora de 6 de novembro. E resolvi escrever novamente não apenas para responder ao que foi dito no seu artigo “Protestem, sim” do dia 9 de novembro, mas para também fazer uma confissão:
Sou seu fã.
Fã da sua coragem, da sua história na defesa das liberdades individuais, da sua participação em entidades altamente relevantes para a democracia e, particularmente, do seu posicionamento claro quando escreve sobre abusos e supressões da liberdade que, infelizmente, ainda acontecem em pleno século XXI.
Peço-lhe desculpas por ter causado tanta indignação a ponto de você colocar o que escrevi no topo da escala de descalabros escritos que foram publicados. Mas gostaria que você conhecesse o tal marcador de livros em forma de pernas femininas antes de escrever o seu texto. Ele é apenas um detalhe da grande ação de comunicação da Feira do Livro, detalhe que acredito ter sido também retirado do seu contexto pela doutora Patrícia Azevedo da Silveira em seu artigo “De pernas para o ar”, publicado na Zero Hora do dia 3 de novembro.
Concordando do que você escreveu, não acho que os publicitários sejam as grandes vítimas da sociedade. Mas isto não estava escrito em meu artigo. O que afirmei é que somos muito visados. E que temos um órgão de auto-regulamentação formado não exclusivamente por publicitários, mas por diversos representantes da sociedade brasileira. E pedi “Por favor, não mande mais um texto para o jornal falando mal da propaganda. Chega.” Mande para o Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária – Conar, um canal democrático e plural, aberto a todos, que há mais de 30 anos derruba propaganda apelativa, grosseira e desrespeitosa.
Como minha mãe me ensinou, quando a gente pede alguma coisa, pede com um “por favor”. Que pode receber um não como resposta. Que, esperamos, seja tão educado quanto o nosso pedido.
Mas no fundo concordamos. Queremos um mundo melhor e liberdade para todos. Inclusive o seu artigo e o da doutora Patrícia estão no blog da minha agência, um espaço democrático que estimula a liberdade de opinião e a propagação de idéias. Assim como a minha opinião, também: acho que a propaganda da Feira do Livro não é machista, nem diminui as mulheres. Por isso defendi a liberdade de expressão de quem o propôs.
Mas o que é um simples marcador de livros frente ao linchamento moral da estudante da Uniban – que o meu sócio, Mauro Dorfman, chama de Unitaleban? Concordo com você, mas acrescento: por mais errado que eu possa estar, colocar no mesmo artigo as minhas palavras e aquela vil tentativa de estupro é por demais perigoso.
O que aconteceu na Uniban não pode ser comparado a nada que uma peça publicitária possa ter sofrido na história da propaganda. O atentado contra a liberdade de expressão da garota está em outro patamar, a dignidade dela é mais preciosa que qualquer campanha de propaganda.
O exercício da liberdade responsável é um dever de todos. Eu, como publicitário, tenho a consciência de que minha liberdade acaba onde começa a dos outros. Agradeço por me lembrar disso mais uma vez. Mas tenha a certeza que, se eu ou qualquer outro publicitário esquecer disso, o Conar está aí para ajudar a sociedade clarear a nossa memória.
—
Share this Post[?]