• 27Apr

    Carlos Saul Duque

    Buenas!
    Talvez tu não me conheça. Meu nome é Gaúcho Maneta. Moro desde 1935 na Loureiro da Silva, esquina com a Luiz Englert em Porto Alegre. E a minha diversão é ver o movimento do Parque da Redenção. Na verdade, meu nome de batismo é Gaúcho Oriental. Mas em 2004 uns ladrõezinhos guaipecas deram de mão no meu laço e, no entrevero, quebraram a minha mão a pedrada. Tempos depois acordei maneta, pois outros, ou os mesmos guaipecas acabaram por levar a mão quebrada de lambugem.
    Isto já faz uns seis anos e sigo maneta. Volta e meia passa um vivente e fica me olhando, tentando imaginar o porquê de uma estátua de gaúcho sem a mão direita na esquina do Parque da Redenção.
    Eu não digo nada. Mas observo. E penso.
    Penso que atacar um símbolo do Rio Grande assim no más já fez a gauchada se envaretar e se unir. E querer briga. Hoje, parece que a gente gosta mesmo é de brigar uns com os outros.
    Penso também que um gaúcho maneta tem lá o seu simbolismo. Perdemos o pulso das côsas? Deram de mão no que é nosso? Tamo precisando de uma mãozinha? Tem madrugada fria que eu fico solito depois da peonada ir embora do parque, espantando o tédio pensando nestas frescuras filosóficas.
    Outras vezes fico pensando que, do jeito que o gaúcho anda dirigindo e as tragédias que anda provocando, talvez eu tenha virado o neo-símbolo do Estado, o Gaúcho Maneta no volante.
    E quando me passa um engraçadinho e diz que eu tô desmunhecado, aí é que me ferve o sangue maragato e me dá gana de passar no fio da adaga os secretários e prefeitos que não fizeram nada pra me tirar desta situação.
    Talvez, penso eu, se estivesse mais perto do aeroporto, como o meu irmão Laçador, ou ao lado do Gasômetro, como a guriazinha Elis, quem sabe não tinham dado um jeito na minha manetice.
    Aqui no Rio Grande se costuma dizer que “quem pensa, não casa.” Bueno, parece que é o meu caso. Mas também fica difícil eu arranjar uma prenda parado aqui nesta esquina. Pois de dia elas passam correndo pra manter a forma. E de noite, passam correndo dos ladrões.
    Mas vou levando a vida. Talvez uma hora destas uma alma caridosa passe por aqui e se comova com o estado mulambento em que estou, sem a mão e com o laço estraviado. E diga para alguém lá no palácio, ou na prefeitura, que isto não se faz com um gaúcho. Até chegar esta hora, vou levando a vida e lembrando com saudade de como admiravam a nossa educação e civilidade. E na falta de conserto, me apoiando na lembrança dos versos do bagual Caco Coelho pra dizer o que sinto:
    Queria que, de repente, tudo fosse diferente,
    da vida que tenho aqui;
    Da cidade ir me embora, viver a vida de outrora,
    dos meus tempos de guri.

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  • 04Nov

    @saulduque

    Dias atrás, comentei um artigo na Zero Hora intitulado “De pernas para o ar“ através do blog da Dez. O meu texto, intitulado “Chega”, acabou também no jornal. Uma pessoa que admiro muito, Lícia Peres, acabou respondendo o meu artigo e… para encurtar a história, resolvi postar todos os artigos, mais um texto que recebei de uma leitora de Zero Hora aqui neste espaço. Sem comentários, sem explicações, mas na sequência em que forma produzidos, para nossos leitores seguirem a cadeia de pensamentos sobre o tema e tirar suas próprias conclusões.

    De pernas para o ar

    (publicado na Zero Hora em 3 de novembro de 2009)

    Patricia Azevedo da Silveira

    Doutora em direito, advogada e professora universitária

    Criada no início do século 20 e concebida para segurar as meias 7/8, a cinta-liga feminina revelou-se ao mundo nos bordéis europeus para saciar estritamente o imaginário erótico masculino. Representava, enquanto signo, o fetiche e a pornografia. Enquanto isso, a maior parte das mulheres ocidentais vestia ceroulas abaixo dos joelhos, as índias andavam nuas e as personagens da literatura eram como a Emma, de Madame Bovary, entediadas pelos casamentos sem amor.


    Progressivamente, a revolução tecnológica e o movimento feminista pela igualdade entre os gêneros contribuíram com a libertação da mulher da culpa, por conta da expulsão do paraíso, e ela pode revelar todas as suas qualidades.

    Mas por que essas referências históricas?

    Neste ano, a Feira do Livro, principal evento cultural do Rio Grande do Sul, adotou, como um dos logotipos presentes nos marcadores de livros, totens, camisetas e campanhas institucionais, a imagem de um par feminino de pernas, voltadas para o ar, que vestem cinta-liga e meias 7/8, onde se lê: “Tem sempre uma emoção esperando por você”.

    Não será grotesco que, para a multiplicação de leitores, se caia na vulgaridade de tomar a mulher como mero objeto da sexualidade masculina? É certo que a vulgaridade atingiu a política, a televisão e tenta arrombar as portas da literatura. Muito menos o patrono da 55ª Feira, um poeta lírico e criativo, dedicado à excelente criação da literatura infanto-juvenil, merecia essa demonstração de vulgaridade explícita. Sequer o termo “você” é típico da linguagem oral ou escrita neste Estado.

    Não precisamos desses apelos para garantir o seu êxito. Ler é compreender a alma humana em sua totalidade. Não proponho, como compensação, que, em evento futuro, faça-se o inverso, pondo-se a mulher a mergulhar com pés de pato, logotipo escolhido para representar o homem. A riqueza de tudo aquilo que o livro, o ser humano e a Feira representam deve ser protegida contra esses rasgos de vulgaridade e de machismo.

    Não importa a profissão da mulher, se operária, juíza ou escritora. Ela pode ser fêmea e pensadora. Com esse gesto, Susan Sontag, Rosa Luxemburgo, Madame Blavatsky e tantas outras não foram convidadas para esta Feira, nem nós.

    Chega!

    (publicado neste blog em 4 de novembro e na Zero Hora em 6 de novembro de 2009)

    @saulduque

    A primeira vez que eu ouvi a Ópera do Malandro, do Chico Buarque, tinha uns 16 anos. Se você ainda não ouviu, recomendo. Grande trabalho do Chico lançado em 1979. Entre canções e intérpretes fantásticos como Zizi Possi, Moreira da Silva e Maria Bethânia, Chico cita musicalmente Brecht, Biset, Verdi e Wagner.

    Uma das músicas que mais me chamou a atenção no disco foi “Geni e o zepelim”, canção que conta a história da prostituta que, desprezada e agredida por todos, salva a comunidade ao dormir com o militar que quer destruir a cidade. Para, na manhã seguinte, ser sádica e novamente apedrejada pela população tão logo o militar e o perigo vão embora. Os versos do Chico viraram bordão:

    Joga pedra na Geni, joga bosta na Geni, ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir, ela dá pra qualquer um, maldita Geni.

    Da ingenuidade dos meus 16 anos (sim, na época os garotos de 16 eram ingênuos), não compreendia direito a grande crítica política que o Chico fazia. A história se passa nos anos 40, época de Getúlio Vargas, mas sutilmente a sociedade brasileira e a ditadura militar no final dos anos 70, já nos seus extertores, são dissecadas na ópera com todo o talendo de Chico Buarque.

    Geni é com certeza uma das personagens mais marcantes. E a mais sofrida. Virou sinônimo de quem é linchado publicamente e, principalmente, de quem toma porrada sem muita razão, como se fosse o culpado de plantão.

    Ontem, eu me senti Geni mais uma vez ao ler o texto da doutora Patricia Azevedo da Silveira, publicado na Zero Hora. O problema: na campanha institucional da Feira do Livro de Porto Alegre há um marcador de livro em forma de par de pernas femininas vestindo uma cinta-liga. Na visão dela, uma “demonstração de vulgaridade explícita”.

    Um ingênuo marcador de livros, um dos vários da campanha que também tem pernas com pés de pato e rabo de dragão, imagens que complementam a boa e competente campanha da agência Matriz.

    Por alguma razão que, sinceramente, não consigo entender, a propaganda e os publicitários são sempre escalados para o linchamento público e a desclassificação sumária. Publicitário é, via de regra, cidadão de segunda classe.

    Não há o que a gente faça que mude esta situação. Campanha social e trabalho solidário. Hora extra de madrugada e no fim de semana. Campanhas brilhantes e prêmios internacionais para o Brasil. Patrocínio cultural, divulgação da música brasileira, excelência artística, dá pra ficar o dia todo falando nisso. Mas na necessidade de um vilão, sempre olham para o nosso lado.

    Há mais de 30 anos a classe publicitária criou o seu Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária – Conar. Publicitários regulamentando publicitários? Só na aparência. O Conar tem hoje um conselho de 180 voluntários. 61% dos seus lugares são ocupados por não publicitários. 16% por advogados como a doutora Patrícia. Além de jornalistas (9%), engenheiros (5%) e médicos (2%), só para citar quatro categorias profissionais que se orgulham da sua profissão, das suas ordens e de seus conselhos. Mas que, ao julgar sua atividade – e que fique claro que isto é um direito deles e não estou criticando – convocam apenas profissionais da sua própria área para isso.

    Os publicitários trabalham de portas abertas para a sociedade, prestando um serviço relevante para a indústria, o comércio e os serviços do país, de outros países e das comunidades onde se localizam. Não têm medo de ser regulamentados por esta mesma sociedade e acatam suas decisões. Mas, sob hipótese alguma, vão levar a culpa porque o mundo está virado, não se respeita mais nada ou tudo virou um grande bordel. Não generalizem, não nos joguem bosta. Não gostou, liga para o Conar.

    E, por favor, não mande mais um texto para o jornal falando mal da propaganda. Chega. A nossa casa não é de tolerância. E Geni só existe na ficção.

    Belas pernas

    (enviado por email para a Dez em 9 de novembro de 2009)

    Gabriela Leal Barreto Gehlen

    Estudante de medicina

    “Tem sempre uma emoção esperando por você”, diz o slogan publicitário da feira do livro este ano. Associado à frase, há um belo par de pernas femininas despontando em forma de marcador de livro. A alusão é clara: a promessa de prazer, alegria, encanto (especialmente o que nos vem em mente, entre outras emoções – “tem sempre uma emoção”) associados tão facilmente ao livro quanto à mulher.

    Criativa, mas, ainda mais do que isso, a simbologia não deixa de ser uma provocação, aliás, muito inteligente e oportuna. Isso principalmente porque inserida neste contexto de feira de livros, uma celebração da arte, portanto. É que justamente o principal papel do artista é entrar em choque com os dogmatismos da sociedade, e o publicitário-artista acabou ilustrando o que também se espera dos livros da feira: fazer pensar, discutir, cutucar o dogma…

    Digo isso porque o referido anúncio já bateu de frente com o que é talvez a mais ingênua cantilena, o dogma, o cânone do feminismo raso (e sempre muito em voga), que trata, naturalmente, da subordinação do sex appeal feminino a um suposto olhar masculino onipresente e opressor, que tornaria a tudo passivo e escravizado; ou, ainda, nas palavras do artigo do dia 03/11, “mero objeto de sexualidade masculina”.

    Porém, é interessante lembrar que a objetificação sexual é característica humana, e que também não é “mera”, mas sim, se compara ao impulso artístico do esteta. Deste modo, frente ao consenso de arrogância que certos feminismos alimentam em resposta à valorização da beleza do corpo da mulher e ao reconhecimento (consciente ou não) do domínio psicológico que dele emana, ofereço as palavras de Camille Paglia quando esta nos diz que “O homem tem dominado tradicionalmente a esfera social; o feminismo lhe diz para sair do poder. Mas a mulher domina a esfera sexual e emocional, e nisso não tem rival. A ideologia de vítima, uma caricatura da história social, bloqueia à mulher o reconhecimento do seu domínio na esfera mais profunda e importante.”

    Mas claro que só se pode entender, seja o par de pernas da feira do livro, a loira linda do comercial de cerveja, ou a modelo ao lado do carro lançamento, com essa compreensão, quando se tem por base as humanidades e a ciência biológica, ao invés de moralismos. Por isso que evoluiríamos infinitamente em autoconhecimento se tivéssemos olhos mais pagãos e não nos consternássemos tanto com o óbvio, o natural; feito isso e com um pouco de boas leituras digo até que talvez conseguíssemos abandonar paradigmas estagnados na alienação, na antinatureza, na negação dos próprios corpos, como também da derradeira e reprimida natureza pagã.

    Enquanto isso restará aos escritores, aos diretores, aos filósofos, aos publicitários (…), enfim – e também a qualquer um que se aventure na liberdade criativa e no livre pensamento – o ataque dos que, por alguma razão, precisarão falsificar preconceitos com que se ofender a toda vez que a provocação da verdade vier à tona. Mas, novamente, eis aí o principal papel do artista: confrontá-los.

    Protestem, sim

    (publicado na Zero Hora em 9 de novembro de 2009)

    Lícia Peres

    Socióloga

    Um dos maiores absurdos que li ultimamente foi o artigo “Chega”, assinado por Carlos Saul Duque (Zero Hora, 6 de novembro).


    Inconformado com a crítica feita por Patrícia Azevedo da Silveira sobre um marcador de página criado especialmente para a Feira do Livro, o autor diz textualmente: “Por favor, não mande mais um texto para o jornal falando mal da propaganda. Chega”. E passa a comparar a propaganda, em geral, à personagem Geni, permanentemente execrada, da música do Chico Buarque.

    Vários erros comete o senhor Duque. O primeiro é partir da premissa de que os publicitários são as grandes vítimas da nossa sociedade. Não é verdade. Há propagandas belas, emocionantes, poéticas mesmo, capazes de encantar a todos. Outras, apelativas, grosseiras e desrespeitosas, que têm merecido protestos veementes para sua retirada. O argumento de que os profissionais da área trabalham incansavelmente não é pertinente, nem justifica tudo. Apenas o esforço não garante bons frutos. Podem varar dia e noite, mas, se o resultado não é bom, são passíveis de crítica.

    O movimento de mulheres inúmeras vezes conseguiu suspender aquelas propagandas que, preconceituosas e causadoras de dano, contribuíam para a manutenção de estereótipos. Quando integrava o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, em Brasília, reunimo-nos com o coordenador do Conar para ponderarmos sobre muitos abusos que vinham ocorrendo nessa área. Foi um encontro respeitoso e democrático.

    Poucos ignoram que a comunicação exerce um papel importantíssimo para a formação da opinião pública. Assim, representa um potencial extraordinário de dinamização de comportamentos. A herança cultural que recebemos nos obriga a estarmos atentas a tudo aquilo que deseduca.

    Infelizmente, só pude ir à Feira do Livro uma vez, e nem recebi o mencionado marcador.

    Mas o que me indignou, de fato, foi a frase reproduzida no início do meu artigo, na qual o vice-presidente de Criação da Dez Propaganda, autoritariamente, decreta a interdição do direito de manifestação contrária à publicidade. Onde ele pensa que está? Que poder ele pensa ter para calar vozes dos que pensam diferente? Delirou?

    A comunicação é, sobretudo, um instrumento valioso, um espaço disponível para a apresentação e sustentação de ideias, o campo argumentativo que contribui para o esclarecimento e a formação de pessoas conscientes. Mais educadas, portanto.

    Linchamento mesmo foi o sofrido pela estudante da Uniban obrigada a suportar todo tipo de agressões, por usar um minivestido rosa. A ela é que a turba, tentando convertê-la na Geni, desferiu violento e covarde ataque.

    O exercício da liberdade responsável se afirma quando, seja no que for, podemos, de maneira civilizada, manifestar nossa opinião, seja de concordância, seja de protesto.

    Protesto!

    (postado em 11 de novembro de 2009)

    @saulduque

    Prezada Lúcia Peres.

    Perdoe-me tratá-la assim de você, mas sendo alguém que acompanho há muito tempo, sinto-me à vontade de deixar o tratamento formal de lado.

    Achei válida e democrática a sua indignação com o meu artigo “Chega”, publicado na Zero Hora de 6 de novembro. E resolvi escrever novamente não apenas para responder ao que foi dito no seu artigo “Protestem, sim” do dia 9 de novembro, mas para também fazer uma confissão:

    Sou seu fã.

    Fã da sua coragem, da sua história na defesa das liberdades individuais, da sua participação em entidades altamente relevantes para a democracia e, particularmente, do seu posicionamento claro quando escreve sobre abusos e supressões da liberdade que, infelizmente, ainda acontecem em pleno século XXI.

    Peço-lhe desculpas por ter causado tanta indignação a ponto de você colocar o que escrevi no topo da escala de descalabros escritos que foram publicados. Mas gostaria que você conhecesse o tal marcador de livros em forma de pernas femininas antes de escrever o seu texto. Ele é apenas um detalhe da grande ação de comunicação da Feira do Livro, detalhe que acredito ter sido também retirado do seu contexto pela doutora Patrícia Azevedo da Silveira em seu artigo “De pernas para o ar”, publicado na Zero Hora do dia 3 de novembro.

    Concordando do que você escreveu, não acho que os publicitários sejam as grandes vítimas da sociedade. Mas isto não estava escrito em meu artigo. O que afirmei é que somos muito visados. E que temos um órgão de auto-regulamentação formado não exclusivamente por publicitários, mas por diversos representantes da sociedade brasileira. E pedi “Por favor, não mande mais um texto para o jornal falando mal da propaganda. Chega.” Mande para o Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária – Conar, um canal democrático e plural, aberto a todos, que há mais de 30 anos derruba propaganda apelativa, grosseira e desrespeitosa.

    Como minha mãe me ensinou, quando a gente pede alguma coisa, pede com um “por favor”. Que pode receber um não como resposta. Que, esperamos, seja tão educado quanto o nosso pedido.

    Mas no fundo concordamos. Queremos um mundo melhor e liberdade para todos. Inclusive o seu artigo e o da doutora Patrícia estão no blog da minha agência, um espaço democrático que estimula a liberdade de opinião e a propagação de idéias. Assim como a minha opinião, também: acho que a propaganda da Feira do Livro não é machista, nem diminui as mulheres. Por isso defendi a liberdade de expressão de quem o propôs.

    Mas o que é um simples marcador de livros frente ao linchamento moral da estudante da Uniban – que o meu sócio, Mauro Dorfman, chama de Unitaleban? Concordo com você, mas acrescento: por mais errado que eu possa estar, colocar no mesmo artigo as minhas palavras e aquela vil tentativa de estupro é por demais perigoso.

    O que aconteceu na Uniban não pode ser comparado a nada que uma peça publicitária possa ter sofrido na história da propaganda. O atentado contra a liberdade de expressão da garota está em outro patamar, a dignidade dela é mais preciosa que qualquer campanha de propaganda.

    O exercício da liberdade responsável é um dever de todos. Eu, como publicitário, tenho a consciência de que minha liberdade acaba onde começa a dos outros. Agradeço por me lembrar disso mais uma vez. Mas tenha a certeza que, se eu ou qualquer outro publicitário esquecer disso, o Conar está aí para ajudar a sociedade clarear a nossa memória.

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  • 17May

    Carlos Saul Duque

    Por uma dessas coincidências da vida, preparava-me eu para passar um sábado caseirinho comendo pizza e vendo um dvd quando o telefone tocou e dois ingressos para o show do Gilberto Gil em Porto Alegre caíram no meu colo. Vencida a preguiça inicial e a tendência pessoal de evitar mudanças repentinas de programa, fui.

    Que bom que eu fui.

    Durante mais de duas horas, Gilberto Gil deu uma aula de alegria, energia, paixão pelo que faz e altíssimo talento e criatividade. Com um repertório escolhido a dedo, separou o show em bloquinhos de três músicas conectadas pela personalidade e ritmo: três reggaes, três rocks, três baladas, três forrós e assim por diante. Com uma banda pra lá de competente – a Banda Larga – Gil fez um show contagiante, belo, honesto, no sentido mais nobre deste adjetivo tão mal usado por aí.

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    Acima de tudo, aquele negrão de 66 anos pulando feito um moleque, que já foi ministro, que já foi preso, que tantas vezes se reinventou e, fazendo isso, ajudou a reinventar a música brasileira, deu um show de talento para a vida que poucas vezes a gente vê no palco. Vida que ele coloca como ninguém na sua música, que fala de coisas tão triviais de um jeito tão mágico que a gente sai feliz – da vida – de um show dele.

    Para homenagear o Gil, então, dez frases retiradas de dez canções. E tomara que eu esteja como ele. Quando tiver 66.

    Não tenho medo da morte, mas medo de morrer, sim. A morte é depois de mim, mas quem vai morrer sou eu. O derradeiro ato meu e eu terei de estar presente. Assim como um presidente, dando posse ao sucessor, terei que morrer vivendo sabendo que já me vou.

    Andar com fé eu vou, que a fé não costuma falhar. Certo ou errado até, a fé vai onde quer que eu vá. A pé ou de avião. Mesmo a quem não tem fé, a fé costuma acompanhar. Pelo sim, pelo não…

    Queremos saber o que vão fazer com as novas invenções. Queremos notícia mais séria sobre a descoberta da antimatéria e suas implicações.

    Se eu quiser falar com Deus tenho que aceitar a dor. Tenho que comer o pão que o diabo amassou.

    Sente-se a moçada descontente onde quer que se vá. Sente-se que a coisa já não pode ficar como está. Sente-se a decisão dessa gente em se manifestar. Sente-se o que a massa sente, a massa quer gritar: “A gente quer mudança. O dia da mudança. A hora da mudança. O gesto da mudança”.

    O amor da gente é como um grão: uma semente de ilusão. Tem que morrer pra germinar.

    E a cidade, que tem braços abertos num cartão postal, com os punhos fechados na vida real lhe nega oportunidades, mostra a face dura do mal. Alagados, Trenchtown, Favela da Maré. A esperança não vem do mar, vem das antenas de TV. A arte de viver da fé, só não se sabe fé em quê.

    Uma lata existe para conter algo. Mas quando o poeta diz: “Lata”, pode estar querendo dizer o incontível. Uma meta existe para ser um alvo. Mas quando o poeta diz: “Meta”, pode estar querendo dizer o inatingível.

    Minha ideologia é o nascer de cada dia. E minha religião é a luz na escuridão.

    Sou o punk da periferia. Sou da Freguesia do Ó – Ó, aqui pra vocês.

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  • 07Apr

    por Harry Peacock

    Salve, colegas!

    Depois de inúmeras e infrutíferas tentativas de entrevistar Muhammad Ali, resolvi responder as perguntas que gostaria de fazer a ele com respostas que fornecidas por um dos maiores boxeadores de todos os tempos, o verdadeiro mr. Eye of the Tiger, para perguntas feitas para o NY Times e para a revista Esquire, entre outros veículos menores. Gostei tanto da minha solução genial para este problema que prometo voltar com mais entrevistas de celebridades usando este método, que já batizei de harrypeacokiano. Por enquanto, com vocês, Muhammad Ali.

    Harry Peacock:

    1. Sr. Muhammad Ali, é um prazer receber aqui no Blog da Dez alguém tão amado e admirado em todo o planeta.

    Muhammad Ali:

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    “Eu gostaria que as pessoas amassem todo mundo do mesmo jeito que me amam. Viveríamos em um mundo melhor.”

    H.P.:

    2. Entrando no assunto Dez. A agência é conhecida pelos seus métodos coletivos de trabalho, onde os departamentos se unem para tocar tarefas que, em uma abordagem tradicional, são respondidos por apenas uma área técnica da agência. O que o sr. acha disso?

    M.A.

    “Quanto mais ajudamos aos outros, mais ajudamos a nós mesmos.”

    H.P.

    3. Outra característica da Dez é o uso do humor na propaganda…

    M.A.

    “A comédia é um jeito engraçado de dizer a verdade. Meu jeito de fazer piadas é contando a verdade. Esta é a piada mais engraçada do mundo.”

    H.P.

    4. Linda resposta. Criativa como a Dez.

    M.A.

    “O homem que não tem imaginação não tem asas.”

    H.P.

    5. A Dez mudou recentemente a sua estrutura diretiva, com Mauro Dorfman assumindo a Presidência da agência. 

    M.A.

    “Deus não coloca um peso nos ombros de um homem se souber que ele não pode carregá-lo.”

    H.P.

    6. Que conselho você daria para o Presidente? 

    M.A.

    “Um homem que vê o mundo aos 50 do mesmo jeito que via aos 20 perdeu 30 anos de sua vida.”

    H.P.

    7. Você acha que ele vai enfrentar dificuldades, já que há uma crise de dimensões globais?

    M.A.

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    “O sol sempre está brilhando em algum lugar.”

    H.P.

    8. Mas as respostas para a crise estão difusas. Muita gente importante, até agora, não falou sobre ela.

    M.A.

    “O silêncio é de ouro quando você não consegue pensar em uma boa resposta.” 

    H.P.

    9. Estamos chegando ao final de nossas Dez perguntas. O sr. Gostaria de deixar uma mensagem de otimismo para a equipe da Dez?

    M.A.

    “Quando você está certo, ninguém se lembra. Quando você está errado, ninguém esquece.”

    H.P.:

    10. Pô, Ali, que baixo astral! Manda outra aí. Manda uma para o Cavinato, que tá sem namorada…

    M.A.:

    “O amor é uma rede que captura corações como se fossem peixes.”

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  • 23Mar

    Carlos Saul Duque

    Todo grupo de pessoas têm os seus códigos, frases e bordões, seja este grupo uma turma de amigos ou uma equipe de cirurgia estereotáxica. Na Dez não é diferente. Já faz um tempo que a gente se acostumou a dizer “Olho do Tigre” sempre que a situação, para ser resolvida, exige foco, garra e dedicação.

    O olho do tigre em questão vem da música “Eye of the Tiger”, trilha sonora do filme “Rocky III”, interpretada pelo Survivor. Rocky, o empacotador de carne, cobrador de dívidas e dublê de boxeador chinelão vivido por Sylvester Stallone. Rocky, o americano comum que no primeiro filme da série tem a chance única na vida de lutar com Apollo Creed, o superfamoso campeão dos peso-pesados. Rocky, aquele que não tem nada a perder, sobe no ringue e dá o mais famoso olho do tigre da história do cinema em Apollo, lutando com foco, garra e dedicação além dos limites.

    Mas eu não estou aqui para falar do olho do tigre e sim para o dono do olho. Que não é o Survivor, nem o Sylvester Stallone, mas um senhor negro nascido no Kentucky sob o nome de Cassius Marcellus Clay Jr. que ficou conhecido pelo nome muçulmano que adotou: Muhammad Ali.

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    Dizer que Ali é o Pelé do boxe é uma obviedade. O sujeito foi campeão olímpico e ganhou três campeonatos mundiais derrotando praticamente todos os pesos-pesados da elite do boxe. Tornou-se muçulmano sem dar a mínima para a opinião pública americana. Desafiou o governo dos Estados Unidos não participando da guerra do Vietnã – perdeu a licença para lutar por causa disso e a recuperou na justiça.

    Quem viu Ali lutar ou falar pode até não ter gostado do cara, mas nunca ninguém conseguiu ficar indiferente ao que aquele negão gigantesco de frases inteligentes dizia. Tudo que ele fazia, fazia com olho do tigre, esta era a sua essência. Na verdade ainda é, pois Ali está vivo, sofrendo com o mal de Parkinson desde 1984, mas o seu olho do tigre continua focado como sempre.

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    Desde que se aposentou, Ali virou um campeão das causas humanitárias, emprestando o seu nome e presença para iniciativas contra a fome e a pobreza, promovendo a educação e a adoção de crianças. A estimativa é de que Ali já tenha proporcionado mais de 22 milhões de refeições ao redor do globo, viajando em média 200 dias por ano para apoiar eventos humanitários.

    E, uma vez olho do tigre, sempre olho do tigre. Ao ganhar uma estrela no Calçada da Fama em Los Angeles em 2002, Ali exigiu – e levou – seu nome e estrela para a parede do Kodak Theatre. Não quis seu nome no chão para as pessoas que o desrespeitaram não pisarem nele. Esse é Ali, aquele que flutuava como a borboleta e picava como a abelha. Alguém que, com certeza, serviu de inspiração para Sylvester Stalonne compor o seu Rocky, o lutador. Um tigre tão focado que teve a coragem de dizer: “Eu sou o maior de todos. E eu disse isso antes mesmo de saber que eu realmente era”.

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