• 23Dec
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    Completar anos tem me rendido mensagens surreais de parabéns que surtem efeito inverso. Dias atrás, escrevi sobre minha madrinha, que conseguiu, em apenas seis linhas, me enviar congratulações e me chamar de feio, na mesma mensagem. Agora, quase um mês depois do meu aniversário, a demência prossegue.

    Recebo e-mail de parabéns vindo direto do exterior. Respondo, agradecendo pela lembrança. E hoje chega a tréplica letal para a auto-estima do ex-aniversariante que vos escreve, cujo trecho reproduzo abaixo (novamente, grifo meu):

    “Que bom que tu gostou do email de aniver. Não tem como esquecer o teu niver. Meu pai também faz dia 28, só que um mês depois de ti.

    Como eu disse antes, obrigado pela lembrança.

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  • 11Dec
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    Fico completamente transtornado com o poder da palavra escrita. Se o cara tem a manha, as palavras podem servir como instrumento de encanto; se não tem, bem, abrem-se as portas da interpretação equivocada, das ironias que passam assobiando, com as mãos para trás, sem serem notadas, e dos elogios que funcionam de forma proporcionalmente inversa à melhor das intenções.

    Digo isso porque dia desses recebi um torpedo de aniversário da minha madrinha. Minha madrinha sempre lembra da data e se manifesta de forma carinhosa por telefone. Só que este ano ela resolveu escrever em vez de ligar, e o resultado disso, cujo trecho fatal reproduzirei a seguir, é uma verdadeira tentativa de atentado à auto-estima do amigo que vos escreve. Leia e tire suas conclusões (grifo meu):

    “(…) Quem dera que houvesse no mundo mais lindos como você. Digo bonito por dentro, que é o que mais conta. (…)”

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  • 08Oct
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    O que quer que um outro disser bem, é meu. Sêneca, séc I d.C.

     

     

     

    Comprei “O Livro das Citações”, de Eduardo Giannetti. Em uma agência de propaganda – principalmente dentro da Criação – sempre é bom ter um livro deste tipo por perto. Aniversários, cartões de diversas estirpes, briefings espirituosos e outros textos menos cotados sempre pedem uma citaçãozinha. Por isso acomodei o livro do Giannetti ao lado dos Phrase Books do Duailibi, encostado no “Millôr Definitivo” e fazendo contraste à bíblia do cinismo que é o “Dicionário Universal de Citações” do Paulo Rónai.

    Mas este livro é diferente já no seu prefácio, pois não há prefácio, mas uma série de citações sobre prefácio.

    No índice, uma série de títulos inspirados para separar o livro em assuntos: “Os mal-entendidos governam o mundo”, “O bálsamo da inconsciência e o elogio do sono”, “O neolítico moral” e por aí vai. Um livro para ter junto ao trono e abrir ao léu, porque toda a página aberta não começa uma história, mas propõe caminhos para que algo aconteça: um autor a conhecer, um livro para ler, ou, o mais óbvio, uma citação para incorporar no repertório.

    Como hoje em dia tudo é citação, cover, releitura, repaginação, retrô-atividade ou homenagem, beba direto na fonte e crie o seu próprio movimento. Garanto que algumas das frases organizadas no livro vão lembrar você de algo contemporâneo que você leu, ou uma música da moda que você achou muito original. Recomendo e encerro – óbvio – citando Jorge Luis Borges:

    “Que outros se jactem das páginas que escreveram; a mim me orgulham as que tenho lido.”

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  • 28Mar

    A Dez está fazendo quatorze anos. E eu estou dividida entre uma sensação de muito orgulho por estar aqui há dois e outra de pânico por perceber que, quando a Dez começou, eu estava começando também, engatinhando na criação de uma agência, me apoiando nas mesas dos profissionais mais experientes pra conseguir levantar e andar com minhas próprias pernas, levando alguns tombos e levantando de novo entre um job e outro.

    De longe eu ouvia falar dos “guris da Dez”, que teriam tirado as rodinhas de suas bicicletas e passado a pedalar sozinhos no pátio de sua própria agência. Eram guris, mesmo. Guris de vinte e poucos anos que se conheceram ainda quando pequenos criadores, apesar da altura do Saul e da grandiosidade do talento de cada um deles. Juntos, foram crescendo num mercado de gente grande da maneira que todos nós gostaríamos de crescer: com trabalho, sim, mas com muito prazer e diversão. Ninguém me contou, eu vi. Vi esse crescimento pelo lado de fora. No jornal, na televisão, no rádio, nas ruas. E logo em seguida nas entregas de prêmios, nas páginas dos anuários, nas folhas da Archive, na satisfação dos clientes, nas conquistas de contas. Juntos, cresceram com uma irreverência que poucas vezes se viu numa agência em Porto Alegre. Não uma irreverência momentânea, mas constante. Deixaram de ser pequenos criadores para virar grandes criadores, não só de anúncios e campanhas, mas de cases, de oportunidades, de empregos, de carreiras e até de filhos.

    Eu? Deixei de assistir do lado de fora e vim pra cá tentar crescer ainda mais com eles. Já não engatinho mais, já sei andar, correr até. Já tenho anos de carreira nas costas, já tenho filho, já tenho prêmios, já tenho experência. Não sou mais aquela menina, o tempo é impiedoso, não volta, assusta. E mesmo assim, com as rugas que também tenho, tenho orgulho. O pânico, passou. Afinal, quatorze anos não são nada se você se sente uma guria. Uma guria da Dez.

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