• 22May

    Daniella Ferreira

    E então que hoje, em comemoração a nada e a coisa nenhuma, acontece o Bigoday na Dez Propaganda. Quem não tinha bigode, deixou crescer. Quem tinha barba, raspou. E quem não tinha nem nunca vai ter, deu um jeito de improvisar.

    Mas…bigode???
    Sim, aquele conjunto de pelos faciais, localizados entre o nariz e o lábio superior e é comum ser preservado por alguns homens junto ou não de uma barba. Também pode crescer em mulheres, não é, Tia Lúcia?

    E as mulheres, tipo assim, a Angelina Jolie, gostam de bigode?
    Olha, depende. Da mulher, do bigode, de tanta coisa. Mas a boa notícia é que policiais rodoviários, portugueses da padaria e Clark Gables em geral agora são bem-vindos ao mundo da moda. O site WGSN, grande apontador de tendências, já mandou avisar que usar bigode é bacana. Foi só Brad Pitt e Robert Downey Jr. desfilarem assim nas calçadas da fama que os editores de moda cresceram o olho. E passaram a achar fashion deixar crescer também os pelos debaixo do nariz.

    Mããs… de onde saiu essa idéia?
    A idéia do Bigoday é coisa do Thiago Bizarro, chefão do Design. Só um cara com esse nome, Thiago, pra ter idéias assim. A outra idéia, o tal do bigode, surgiu na idade média, quando os germanos chamaram a atenção dos habitantes da Península Ibérica por causa do monte de pelos em cima da boca e de seus juramentos e imprecações que proferiam. Com inusitada freqüência, os germanos exclamavam ‘bi Got!’, ‘por Deus!’ Mais que um juramento, era uma mera interjeição. Mas, sem entender o que aquela palavra significava, os ibéricos começaram a chamar de ‘bigot’ os homens bigodudos.

    E tem algum bigodudo famoso aí?
    Exatamente aqui na Dez, exatamente assim, famoso, não. Tem alguns sósias de famosos, serve? Mas ah, quem precisa de fama quando se tem amigos de bigode?

    Só acredito vendo. Tem foto?
    Ca-laro. E elas estão bem aqui, onde tem que estar: debaixo do seu nariz.

    Share this Post[?]
            
  • 29Dec

    Esta página em branco na minha frente está contrastando com o escuro. Chega a doer os olhos. E o escuro parece ainda maior, perto da luz que sai do monitor. Sentei aqui quando ainda estava dia. Um sol lindo lá fora. Aqui dentro o escuro foi aumentando e o sol diminuindo. Não levantei pra acender as luzes da casa. Não levantei nem quando o telefone tocou. A tela em branco não deixava. Estava me fazendo pensar em certos vazios que as pessoas têm. O cursor piscando, o telefone tocando, o calor machucando e eu com os olhos parados nesse retângulo branco. A cabeça funcionava. Não parou por um segundo sequer. Ela foi até a porta do quarto e acendeu a luz. Foi também até a janela deixar o vento entrar. Até um café na cozinha ela pegou. Minha cabeça deu uma chegada na minha infância e viu, acredito eu, a primeira grande mudança da minha vida, quando viemos do Rio pra Porto Alegre. Deixei meu quartinho com as paredes rabiscadas, a praia do Leblon, a escola que adorava, os amigos que nasceram comigo. Fez um passeio pelo rosto de todos eles. E do quartinho de paredes rabiscadas, a cabeça foi para outro quartinho. Não tinha rabiscos. Nem quarto de criança era. Uma casa cinza, úmida. Cheia de enfeites feios de cristal. Eu não podia brincar, mal podia me mexer. Se respirasse podia quebrar o flamingo de vidro. Devia ter respirado, maldito flamingo de vidro. Minha tia, dona da casa, hospedou a família por um tempo, até nosso apartamento ficar pronto. Um tempo, aliás, que não gosto nem de lembrar. Sai daí, cabeça. Vai já pra um lugar mais legal, como o prédio na Anita Garibaldi. Lá, sim, eu me diverti. 10 anos de felicidade, de bagunça, uma turma enorme, polícia e ladrão, vôlei, tombos, namorinhos, reuniões dançantes, o cometa que ninguém viu. O primeiro “eu te amo” que alguém me disse. E o primeiro e único que me deu vontade de sair correndo depois de ouvir. Correndo entre gangorras e balanços.

    Essa cabeça, vai a cada lugar… Só hoje, foi ao meu primeiro beijo, ao meu vestibular, a minha formatura, ao meu primeiro emprego e à primeira demissão. Foi à América e à Europa também, mas voltou rapidinho ao Brasil. E viu nascimentos, casamentos, batizados, encontros, reencontros, desencontros. Viu o carnaval, aquele, fantasiada de batata frita do Mcdonalds. O primeiro Natal na minha própria casa, a praia com o pessoal da agência, uma separação, alguns namoros e últimos beijos. Viu o Reveillon na areia da praia cheia e um outro, com a casa vazia e totalmente sozinha no sofá. E a vida continuando linda mesmo assim.

    Duas horas depois minha cabeça voltou. Nem percebia mais o escuro em volta. Só a luz do monitor.
    A página vazia já não significava mais algo ruim, vazio. Significava, sim, um futuro. Aliás, lá minha cabeça foi também. Foi até 2009, 2010. E voltou. Voltou porque o futuro, sim, ainda é uma página em branco. E uma página em branco é tudo o que precisamos para começar a escrever. Quem sabe assim:

    “A página em branco na sua frente contrastava com o escuro. Chegava a doer seus olhos. E o escuro lhe parecia ainda maior, perto da luz que saía do monitor. Ela havia sentado ali quando ainda estava dia. Um sol lindo lá fora. Lá dentro o escuro foi aumentando e sol diminuindo. Então, ela desligou o computador, levantou, pegou a bolsa. Deixou as luzes da casa apagadas. E saiu para tomar uma cerveja com os amigos.”

    Feliz 2009. Um grande futuro a todos vocês que passarem por esta página amarela.

    Share this Post[?]
            
  • 09Dec
    Categories: Contos, Ficção Comments: 0

    5 minutos são o bastante pra fumar um cigarro, tomar um café e ouvir uma boa história:

    Ana* é uma mulher de seus 40 e poucos anos, executiva de contas de uma agência de propaganda. Mulher inteligente, independente e, pra não perder a rima, doente, porque é a única mulher do mundo que não gosta de shopping. Em nenhum dos sentidos da palavra. Não gosta de entrar em shopping. Não gosta de fazer shopping. NÃO GOSTA DE COMPRAR! Ana é casada com Divino* há 25 anos. Em 25 anos, Ana NUNCA comprou nada. Nunca aloprou numa liquidação, nunca enlouqueceu numa loja de roupas. Eu disse: EM 25 ANOS, ANA NUNCA COMPROU NADA. Nem calcinha, nem sutiã. Nem um brinquinho, nada. Mas não pense que Ana anda pelada pelos corredores da agência. Ana anda é muito bem vestida. De calcinha, sutiã e roupas elegantes. Até brinco ela usa. Tudo comprado pelo Divino, seu marido. Eu disse: TUDO COMPRADO PELO DIVINO, SEU MARIDO. Saiu mais cedo do trabalho? Divino vai ao shopping, fazer shopping para Ana. Recebeu o salário? Divino vai comprar jóias para Ana. Choveu? Lá vai ele de novo. Há 25 anos…

    O cigarro queimou. O café esfriou. Meu queixo caiu.

    *Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos envolvidos. Ela não se chama Ana. Mas ele só não é Divino por detalhe.

    Share this Post[?]
            
  • 24Nov
    Categories: Contos, Ficção Comments: 1

    Seu Rios era o nome dele, o taxista. Um mulato dos seus 60 e tantos anos, cabelo puxado num engomado rabo de cavalo.

    - Bom dia, minha flor. Aonde vamos?

    Se fosse um daqueles dias em que prefiro um motorista de táxi surdo-mudo, teria apenas dado a direção e colocado meus fones bem encaixadinhos nos ouvidos. Mas não. O sol, o céu limpo, o calorzinho, as pernas de fora e a noite muito bem dormida me deixaram com tão bom humor que conversaria com taxista durante horas de congestionamento.

    Mas não qualquer taxista. Logo eu viria a descobrir: Seu Rios era especial.

    Nos 32 minutos de duração da corrida, Seu Rios me contou que conhecera seu grande amor no Bairro Bom Jesus.

    - Era a mulher da minha vida. Anos depois a vida não nos quis mais juntos. Muito triste, eu fiquei.

    Pobre homem, pensei. A mulher deve ter morrido, a família talvez fosse contra o casamento, ela adoeceu, quem sabe.

    - Eu tive 11 filhos com essa daí, a legítima. Daí apareceu uma mulher que desgraçou a minha vida. Fiquei com ela também, tive 5 filhos, a outra descobriu e quis me deixar.

    Pobre homem coisa nenhuma. Duas mulheres? 16 filhos? O que o senhor quer mais? Ah, ele queria. Seu Rios queria mais.

    - Mandei a desgraçada pro Rio de Janeiro. Dei dinheiro e falei: vai embora pra lá que tem bastante homem. Ela foi. Mas voltou em 15 dias. Acho que não tinha homem suficiente. Essa aí, a desgraçada, construiu uma casa lá na Vila Bom Jesus. Ali onde eu conheci a mulher da minha vida.

    E o senhor mora com ela? Pensei. E perguntei.

    - Que nada. Moro com a terceira, lá em Guaíba. Com ela tenho 9 filhos.

    É, ele queria mesmo mais.

    - Fora os 4 que tenho em São Paulo. E os outros 3 que tenho no Rio.

    Não consegui fazer as contas, mas um número maior que 30 aparecia na minha cabeça. Mais de 30 filhos, 3 mulheres. A mulher da vida dele, a desgraçada e a terceira, lá de Guaíba.

    - A desgraçada… que preta bonita. Um traste, mas bonita. Uns olhos assim “gateados”, cor de mel. A terceira, de Guaíba, é uma mulata de cabelo na cintura. Bonita também. Tem uma outra aí, mas não é oficial. É bonita… mas não tanto… é meio sem graça porque é branca. Assim, como a senhora.

    Branca e sem graça como eu.
    Melhor assim, Seu Rios. Homens de rabo de cavalo me atraem menos que homens que têm 4 mulheres.

    Foi então que ele me contou:

    - Fui pro Rio uma vez e acabei com aqueles caras do morro metidos a sambistas. A cariocada se encantou com o gogó aqui. Eu tinha um conjunto, o “Café, Som e Leite”. Só samba de raíz. Se eu canto a senhora se apaixona.

    Canta, seu Rios, canta.
    E ele cantou, da Nilo Peçanha até o Moinhos de Vento:

    Esse corpo moreno cheiroso e gostoso que você tem

    É um corpo delgado da cor do pecado
    Que faz tão bem
    Esse beijo molhado, escandalizado que você deu
    Tem sabor diferente que a boca da gente
    Jamais esqueceu

    Quem mandou me provocar? Cantamos juntos:

    E quando você me responde umas coisas com graça

    A vergonha se esconde
    Porque se revela a maldade da raça
    Esse corpo de fato tem cheiro de mato
    Saudade, tristeza, essa simples beleza
    Esse corpo moreno, morena enlouquece
    Eu não sei bem por que
    Só sinto na vida o que vem de você

    Ele tinha razão. Confesso que me apaixonei.

    Pela pessoa simples, doce e poligâmica do Seu Rios.

    Numa das poucas vezes que consegui falar, perguntei:

    - E a mulher da sua vida, Seu Rios? Mesmo com tantas outras, ainda é a mulher da sua vida?

    E ele, com sua voz de sambista do Morro da Cruz, respondeu:

    - Ora, minha filha… Claro que é! Ela é a única que eu amo. Que mulher a… a…. Puxa, me fugiu o nome!

    Eu falei. Desde o minuto em que entrei no táxi, senti que o Seu Rios era assim, especial.

    Share this Post[?]
            
    Tags: ,
  • You

    14Sep

    Da série: eu queria ter criado. E não é nenhum anúncio, nem filme, nem outdoor, nem nada parecido com os filés que todo criador deseja. É só um vídeo motivacional. Que, justiça seja feita: não tem nada de . Invejei.

    Share this Post[?]
            
  • Pages: 1 2 Next

Blogroll:

Recent Posts