Postado em: 16/11/2008.

Grite. Grite outra vez. por Carlos Saul Duque


Seria a propaganda "mais poderosa que um barril de ácido borbulhante"?

Não, Cavinato, contenha o seu entusiasmo. Este texto não é sobre o clássico filme “B” dos anos 60 estrelado pelo trio arrepio Christopher Lee, Peter Cushing e Vincent Price. Mas o título dele é a melhor maneira de classificar os intervalos comerciais do Fantástico, principalmente porque chegou a época mais feliz do ano, o Natal.

Uma a uma, com o volume cada vez mais alto e o nível de histeria cada vez maior, os grandes, médios e pequenos varejos berram suas ofertas usando apresentadores histriônicos e revezamento febril de computações, entregadores fardados e papais noéis de sorriso travado. Quando o bombardeio dos varejos cessa, vem o das cervejas e seus brindes intermináveis, já que hipocritamente não se pode mostrar ninguém consumindo nos comerciais.

E a gente fica chuleando que a Patrícia Poeta volte logo e nos traga um pouco do seu sobrenome, mas “não pára, não pára, a Vivo não pára, não pára, não pára, a Vivo não pára… não páááára… a Viiivo não páááááára!”

Varejo, cerveja e operadoras de telefonia. Que pena, foi quase tudo pro brejo. Muito grito, pouca inteligência, repetição interminável de bordões e ofertas. Pouco espaço para o raciocínio, digamos, um pouco mais elaborado, tem limitado a ação das agências de propaganda a um repetir de fórmulas gastas onde o grito, o sexo e o sorriso travado são armas que ainda funcionam, mas somente porque têm a muleta de uma veiculação lavagem-cerebralmente massiva.

Vou passar no vídeo e tirar “Grite. Grite outra vez”. Se é pra gritar, que pelo menos seja com o sorriso macabro do Vincent Price.

 
Postado em: 14/11/2008.

A gente dorme e o mundo gira por Carlos Saul Duque


Sophia nos tempos da brilhantina

Estranho. A pequena mancha em forma de mapa da Itália sumiu. Ainda ontem ela estava lá, exatamente em cima de mim, centralizada em meu campo de visão quando olho para cima com meu pescoço apoiado no travesseiro dobrado. Se os pés da cama são o sul, minha pequena Itália estaria ligeiramente inclinada para oeste, como se a bota chutasse a Sicília para o meio do Mediterrâneo. Estaria, pois neste exato momento, sumiu. Agora tudo que existe é um branco absoluto.

Via Appia, ao sul de Roma. O caminho imaginário que eu percorria em minha pequena Itália suspensa sempre foi aquecimento para o meu sonho mais recorrente. Sophia Loren em um Fiat Spider conversível. Eu na Via Appia, pedindo carona. Ela passa por mim sem dar a mínima, a placa indica Roma a duzentos quilômetros. O carro some no horizonte, corro atrás dele e invariavelmente acordo banhado em suor e com uma dor lancinante na canela esquerda. Antes de acordar, entretanto, vejo Benito Mussolini, fardado da cabeça aos pés com o uniforme do Roma. Ele corre ao meu lado e grita: "A poltrona e as pantufas são as ruínas do homem!" E chuta minha canela esquerda.

Só que agora a mancha sumiu. Tudo é branco. Tento imaginar a Sibéria, alva e fria, os seus contornos borrados pela neve incessante que se espalha por todo o teto do meu quarto. Adormeço. Mikhail Gorbatchev em um Lada Niva. Fumaceira dos diabos. Peço carona, ele passa por mim sem dar a mínima. A placa diz que Moscou está a nove mil quilômetros. Tento correr, algo impossível com neve até os joelhos. Maria Sharapova com a farda da Guarda Vermelha corre ao redor de mim, graciosa como se estivesse em uma quadra de saibro, e grita: "Somos todos estudantes e nosso professor é a vida e o tempo!" Pergunto: "Essa é sua?" "Não", diz ela, "essa é do Gorbatchev". E me acerta uma raquetada. Acordo suado e com uma incrível dor de cabeça.

Dona Lourdes aparece para cobrar o valor da faxina. Aproveita para me contar o trabalho que teve para tirar aquela mancha em forma de lombriga do teto de meu quarto. À noite, percebo no teto uma nova mancha, disforme, redonda no centro e com duas pontas nas laterais que apontam para cima... a China! E amarela. A Dona Lourdes avisou que a clorofina poderia coisar a tinta.

Mao Tsé-Tung dirige um garboso Shuanghuan 4x4. Ele está em rota de colisão com a muralha da China. Tento avisá-lo, mas ele não entende porra nenhuma de português. A placa ao largo da estrada diz alguma coisa, mas eu também não entendo porra nenhuma de chinês. Corro para longe da colisão eminente. Jackie Chan corre ao meu lado vestido de mulher. Ele canta "Do you think I'm sexy?" do Rod Stewart. "Rod Stewart uma ova, essa ele roubou do Jorge Ben!", grito eu. Jackie responde: "Se a tua dor te aflige, faz dela um poema." "Essa é sua, Jackie?" "Negativo, essa é de Queiroz."

 
Postado em: 07/11/2008.

Dez Perguntas Para o Doentinho por Harry Peacock


1. Qual é a tua graça e de onde vens?
Adriano Rosa Pacheco, 35 anos, Artefinalista. Sou natural de POA, mas atualmente venho todos os dias de Viamão. Hehe!

2. Porque o teu apelido é doentinho?
Na verdade tenho muitos apelidos, doentinho, demônio..., as pessoas me apelidam com o que mais chamo elas. Atualmente me chamam de compreende. Compreende?

3. O que rola na Dez depois das dez?
Além de trabalho? Só ruídos estranhos que vêm dos dutos de ar, (sussurro) deve ter um ninho de pomba lá.

4. Já que tu vais tanto no andar "E", explica pra nós: que raios significa "E"?
"E" de Estacionamento, mas dizem também que é "E" de Edema para quem fuma, pesado isso, mas é isso. Têm até uma música em ritmo de Capoeira que é assim: Para no "EEEE"...Para no "E" pra eu Fumar.

5. Pra ser arte-finalista precisa de muito estúdio?
Quanto mais estúdio melhor, mas também tem que ter um pouco de cultura, instrução, interesse, vestir a camiseta, e como dizem os jogadores de futebol: tem que ter muita calma, paciência e humildade. hahaha!

6. Quantos cafés tu tomas por dia?
Tô devagar agora, em média 7, 8 por dia.

7. Imitar alarme te faz um cara nervoso?
Não, me faz um cara mais seguro.

8. Que arquivo nunca pode faltar no teu desktop?
A Assinatura da Dez.

9. Por que vocês do Estúdio puxam tanto o saco do Giovanni?
Porquê o Giovanni é o "cara". Um ótimo profissional, gente-fina e organizado. Além de ser bonito, alto e musculoso é claro!

10. É verdade que toda vez que te perguntam algo e tua resposta é sim, tu responde não e mesmo assim age como se fosse sim?
Não!!! mas é verdade. Isso começou como brincadeira. Mas as pessoas me entendem e isso tira no mínimo um sorriso de alguém que na hora está atucanada ou preocupada, e acho que assim se sentem melhor. Então virou uma marca. Valeu!

 
Postado em: 05/11/2008.

Faça a Coisa Certa por Carlos Saul Duque



Faça a Coisa Certa - 1989
Direção: Spike Lee


Dentro da Pizzaria do Sal (Sal’s Famous Pizzeria) - Dia

Mookie, o personagem de Spike Lee, acaba de ficar 20 minutos falando com a namorada no telefone da pizzaria. Pino (John Turturro), o filho mais velho de Sal, está p* da cara. Tão logo Mookie desliga, o telefone toca. Pino atende:
- Famosa Pizzaria do Sal, sim, duas pizzas grandes, peperoni e anchovas, um minuto... viu pai, o Mookie fica ocupando o telefone e os clientes tentando ligar pra cá. Ele faz a gente perder dinheiro.

Close - Sal (Danny Aiello)
- Pô, Mookie!

Pino
- 20 minutos!
(Ele desliga o telefone)
- Como vocês crioulos podem ser tão burros?

Close - Mookie
- Se vocês virem um negão aqui, chutem a bunda dele.

Close - Pino
- Vai te f* e não usa o telefone.

Close - Vito (Richard Edson)
- Esquece, Mookie.



Câmera abre - pizzaria
Mookie
- Qual é o seu jogador de basquete preferido?

Pino
- Magic Johnson.

Mookie
- Não é o Larry Bird? Qual o seu ator preferido?

Pino
- Eddie Murphy.

Mookie sorri.
- Última pergunta: qual o seu rock star preferido?

Pino não responde, pois já percebeu a armadilha.

Mookie
- Barry Manilow?

Mookie e Vito riem.

Mookie
- Pino, na boa, responde aí.

Vito
- É o Prince! Ele é louco pelo Prince!

Pino
- Cala a boca! The Boss! Bruuucce (Springfield)!!!!

Mookie
- Engraçado isso. Você diz crioulo isso, crioulo aquilo mas os teus ídolos são todos “crioulos”.

Pino
- É diferente. Magic, Eddie e Prince não são crioulos, quer dizer, não são negros. Quer dizer, eles são negros mas, na verdade, não são. Eles são mais do que negros. É diferente.

Cada palavra de Pino aperta o laço da forca em que ele se meteu.

Mookie
- Pino, eu acho que, secretamente, você sempre quis ser negro. É o que eu penso. O que você acha, Vito?

Pino
- Você sabe que eu tenho ouvido e lido sobre Farrakhan, você sabia disso?

Mookie
- Eu não sabia que você sabia ler.

Pino
- Vai te f*. O pastor Farrakhan sempre fala sobre o tal “dia” em que o homem negro irá levantar-se. “Um dia nós mandaremos na terra, do mesmo jeito que mandamos em nosso passado glorioso”. Você acredita nessa bobagem?

Mookie
- I-ne-vi-tá-vel.

Pino
- Pode ir sonhando.

Mookie
- Vai te f*! E f* a pizza e f* o Frank Sinatra também!

Pino
- F* tu também e f* o Michael Jordan!